E Deus virou as costas...II

Lá em baixo, junto a um curso de água, um grupo de pessoas fazia algo. Como ia à frente fiz sinal de paragem e rastejei até uma posição que me permitisse observar melhor. Peguei nos pequenos mas potentes binóculos “tasco” e vi então que se tratava de um grupo de guerrilheiros bósnios. Eram cerca de vinte e levavam os prisioneiros que havíamos deixado nessa madrugada com os populares. Informei os meus camaradas da situação e decidimos continuar em direcção a um ponto alto que nos permitisse ter “antena” e sermos exfiltrados. Caminharíamos paralelamente aos guerrilheiros, uma vez que também eles fugiam da zona ocupada pelos sérvios. Comemos o que nos restava das rações e seguimos. A fome e o cansaço eram agora mais uma preocupação.
Após mais de duas horas de caminhada ininterruptas e na mesma direcção, quebrando as regras de movimento, o rádio deu sinal de vida.
- Beaver four, this is Beaver zero tango five, over! – Era para nós!
- Beaver 0T5, this is Beaver 4, over! – Respondi.
- Four, what’s your mark, over?
- 0T5, we are out marked, over!
- Roger, calling again in Alpha Echo Mike, out!
- 0T5, roger and out!
Voltariam a chamar dentro de quinze minutos. Continuámos a caminhada ao longo de uma linha de alturas para noroeste, sempre a subir. Dos vales chegava-nos claramente o ruído de viaturas e o ladrar dos cães no meio da gritaria dos “caçadores”. Procuravam-nos, assim como ao grupo de guerrilheiros. Demos com um caminho de montanha onde eram visíveis as pegadas de botas militares e o padrão da sola indicava-nos que todos calçavam o mesmo tipo de bota, logo, não eram guerrilheiros. As pegadas eram bastante recentes, isso via-se pelo rebordo húmido da pegada. Estavam à nossa frente…o que preparavam?
Após um pequeno declive inclinado a norte, detectei movimento a cerca de quatrocentos metros para a nossa direita e para baixo. Instintivamente fiz sinal para agachar e rastejei até onde me era permitido observar sem ser visto. Uns vultos indistintos desaparecerem na bruma que ainda restava em alguns lugares. Ouvíamos claramente a ladainha dos bósnios na reza da manhã. Tinham parado e ficado ligeiramente para trás de nós.
- Beaver 4, 0T5 calling, over! – Era o rádio outra vez.
- 0T5, 4 listening, loud and clear!
- 4, this is 0T5, pushed the transmitting button 20 seconds, than relieve 10, over!
- 04T, starting now!
Tentavam a localização do nosso sinal rádio para nos tirar dali. Apontei os

- Beaver 4, 0T5, come in 4!
- 0T5, 4 here, come in!
- A “Bird friend” is monitoring you. Point 274, follow the beeper and reach orange spot. The night angel is waiting!
- Pointing 274, over.
- 4, this is 0T5, roger and out.
Estávamos condenados a participar no combate. Decidimos então surpreender os “Tigres”, uma vez que a nossa posição nos dava o domínio da situação por estarmos mais altos, com o sol nas costas e por eles não suspeitarem sequer da nossa presença.
Quando os bósnios quase entravam na zona de morte, Nick lançou uma granada para o binómio da metralhadora pesada, mesmo no meio deles. O rebentamento projectou dois corpos no ar e seguiram-se os gritos dos feridos. Ficaram atordoados, de repente passaram de caçadores a caça. Quem já viu estes rebentamentos a alguma distância tem uma percepção irreal da tragédia. Primeiro é a luz do rebentamento, sem som, depois vêem-se os corpos ir ao ar e só um ou dois segundos depois nos chega o estrondo do rebentamento. Depois, só depois, vem o som dos gritos.
Abrimos fogo…tiros, rebentamentos, ordens de comando, palavrões em todas as línguas, mais tiros. Voltou o inferno num dia de sol. Num repente mães perdem filhos, filhos ficam órfãos, esposas tornam-se viúvas, é a dama de negro a reclamar a sua parte na grande representação da estupidez.
Sempre achei que morreria num dia cinzento com chuva…porquê? Nem eu sei. Quanto tempo durou? Horas, minutos, apenas uns breves instantes? Perde-se a noção de tudo. No fim estava alagado em suor, a face quente, levantei-me e mijei às pinguinhas…que sensações. A adrenalina é uma droga estupenda. Depois vem o amolecer do corpo, o nó no estômago, o zumbido nos ouvidos…Estou vivo!
Evitámos o massacre certo dos bósnios. Os sérvios, apanhados entre dois fogos, dos guerrilheiros por baixo e de cima nosso, pouco poderiam ter feito para saírem dali ilesos. De onde estávamos, foi fácil a eliminação do grupo ou de quase todo. Alguns puseram-se em fuga para norte com os bósnios no encalço, sem levar os feridos que eram agora eliminados pelos Mudjaedin.
Os guerrilheiros gritaram qualquer coisa e acenaram. Pegaram fogo aos corpos dos seus e seguiram

Ao entardecer desse dia, numa clareira em altitude, aguardando pelo heli, o rádio avisou-nos para que procurássemos abrigo porque a aviação iria atacar tropas que se aproximavam da nossa posição.
O sol já desaparecia quando o rugido de dois aviões nos arrancou do torpor do cansaço e do álcool. As explosões, muito perto de onde estávamos, confirmavam que o grupo que nos perseguia havia três dias, se encontrava muito perto. Pedras lançadas ao ar pela violência das explosões vinham-nos cair em cima, tão perto estavam de nós os soldados sérvios. No ar, o cheiro a combustível queimado misturava-se com o da cordite

Como estariam os meus filhos? Os meus pequeninos do pai…
A guerra nunca acaba para quem sai dela com vida…nunca mais!
18 Comments:
Sempre em silêncio... por respeito e por algo mais.
Relatos impressionantes, uma vez mais, Manel.
Estupido mundo este e concordo contigo, que os nossos filhos não tenham que passar pelo mesmo.
Abraço companheiro.
Manel!Camarada,relato vivo e com cheiro...
Se não te importas vou-te transportar este texto para o Passa-Palavra Jornal dos Comandos.
Aqui te deixo com um abraço:
AMIGO
Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra amigo!
"Amigo" é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
"Amigo" (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
"Amigo" é o contrário de inimigo!
"Amigo" é o erro corrigido
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada!
"Amigo" é a solidão derrotada!
"Amigo" é uma grande tarefa,
É um trabalho sem fim,
Um espaço sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
"Amigo" vai ser, é já uma grande festa!
Alexandre O'Neill, No Reino da Dinamarca
Mário Relvas
olá manel
li mais um dos teus impressionantes relatos.
como sabes não comento.
mama sumae
abraço manel
Chego aqui e fico arrepiada e muda.
Respeito é o que sinto.
bjinhos
O meu respeito a todos os combatentes, que sofreram as agruras da guerra...
Porque:
Eu concordo com «John Donne» quando diz:
"Nenhum homem é uma ilha isolada, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa - ou noutro qualquer lugar - ficará diminuída, como se fosse a casa do teu amigo ou da tua própia casa. A morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do género humano. E, se dobram os sinos, não perguntes por quem dobram - eles dobram poi TI."
PS: Obrigado pela visita.
Abraço
Paulo
Viva camarada Manel
Cheguei até aqui atravez de MRelvas,e fiquei vidrado ao ler as tuas memorias,simplesmente espetacular,já pensaste em escrever um livro.
Acho que tens jeito.
abraço
As tuas palavras estão vivas, Manel. Com elas entramos em cada momento descrito e contigo sofremos.
Esta tua frase diz tudo: "a dama de negro a reclamar a sua parte na grande representação da estupidez"
Com muito carinho, um grande abraço.
Bjinhos
Ramon, mais uma vez venho aqui largar umas larachas. Quem te conheceu e conhece sabe porque não foste mais longe dentro desta instituição em queda. Foste sempre verdadeiro demais para estes gajos. Não foi a instituição militar que perdeu um grande operacional foi a sociedade civil que ganhou um advogado.
Por isso grito bem alto!
MAMA SUMAE!
"A guerra nunca acaba para quem sai dela com vida... nunca mais!"
Talvez esta seja a verdade mais absoluta que me foi dado ler, sobre a guerra e as suas consequências.
Aceita o meu respeito, solidariedade e muita estima.
Um abraço
Olá Manel!
Consegui visitar-te e encontro mais um intenso pedaço de ti e dos teus "irmãos"...
Sem palavras!
Digo-te apenas que só um Homem muito íntegro e honrado, "sai" de uma guerra e consegue dizer que não se orgulha de tudo o que fez, sabendo que além do instinto básico de sobrevivência e um ideal em que se acredita (ainda que possa acontecer só numa fase inicial), mantém a cabeça erguida pelo respeito que a Vida e a Fraternidade lhe merece. A tua honra, coragem e capacidade de manteres a lucidez depois de tantos encontros com a senhora de negro, é o melhor legado com que podes presentear os que te amam e estimam.
Todo o meu respeito e estima.
Um bj!
Alguém afirmou, num 10 de Junho, junto ao paredão do Bom Sucesso, com absoluta verdade: "...uma vez combatente. sempre combatente..."
Leio agora aqui outra verdade tão absoluta como aquela: "...A guerra nunca acaba para quem sai dela com vida..."
São verdades como estas que são, ou parecem ser, difíceis de entender por tantas mentalidades medíocres, que abundam neste país em que a mediocridade impera.
É ténue, difusa mesmo, a linha que separa a coragem do combatente da abjecção do assassino.
Para o assassino não há limites, olha a guerra com indiferença e usa-a.
O combatente, porém, sente a ferida, que se abre na sua alma, cada vez que tem que disparar a sua arma.
São essas feridas, que não se veem mas não saram nunca, que continuam a ser ignoradas pelos medíocres que por aí abundam.
Talvez por isso se atribuam a assassinos os galardões que aos combatentes se deveriam destinar.
Respeito-te e saúdo-te.
Uma boa semana.
Excelente, que mais posso dizer.Boa semana
Obrigado pelas tuas palavras.
Será uma honra ver o meu link constando neste espaço.
Boa semana
Na guerra nunca há vencedores nem vencidos, só victimas.
Não há "bons" nem "maus", só a inconsciência dos que lutam sem saber muito bem o porquê, e a ganância dos que os enviam lá.
Motivos??: Religião, ambição, primacia da raza, poder, "justiça"(?!? ), economía... e mais mil... São só palavras que nos apresentam. A verdade é sempre só uma bem diferente : A Intransigência, a intolêrancia e a ignorância.
Não, para quem passa por ela de qualquer forma, a guerra nunca acaba....... E o difícil é conviver com isso.
Espero que tu o consigas.
Amigo Manel mais um texto brilhante que devia ser mais conhecido, mais lido.
Será desta vez que nos vamos encontrar em Alvito...?
Um abraço
II ENCONTRO DE BLOGS EM ALVITO
AOS 21 DE ABRIL DE 2007
ESTAMOS ELABORANDO O PROGRAMA:
-COMUNICAÇÕES S/ BLOGS
-MOMENTOS DE POESIA
-CANTARES ALENTEJANOS
-VISITA AO PATRIMÓNIO CONCELHIO
MARQUE JÁ NA SUA AGENDA!
MAIS NOTÍCIAS MUITO EM BREVE.
Um precalço impediu-me de chegar mais cedo.
Obrigado pelas palavras simpáticas.
Claro que podes linkar-me. Já fiz o mesmo, mesmo sem prévia concordância.
Boa semana
Com um grande abraço, cito aqui um analfabeto de quem gosto muito pela coragem, pela coerência e pela inteligência que outros não têm:
- À guerra, não ligues meia,
Porque há os grandes na terra,
Vendo a guerra em terra alheia,
Não querem que acabe a guerra.
Permite-me que use este teu espaço para enviar um grande abraço ao camarada mrelvas.
Parabéns pelo seu poema. São essas as palavras que eu gosto de ler. Um abraço a todos. Bem-Hajam "AMIGOS"
Obrigado Bambino pela tua compreensão. Força na vida que a morte é já a seguir. Saúde e um grande abraço.
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