quinta-feira, março 08, 2007

E Deus virou as costas...II

Saímos da área à velocidade que o caminhar em montanha permite, mudando de direcção a cada vinte minutos de marcha e parando dois a cinco minutos para escutar. Amanhecia agora e a neblina substituía a noite. Voltámos a colocar os lenços em volta da boca e nariz para reduzir o efeito de projecção do vapor da respiração. Não dizíamos nada uns aos outros havia quase três horas. Pensamentos maus, pelo menos os meus, mantinham-me acordado e rápido no passo. Se fossemos capturados sabíamos o destino que nos esperava. Ao longe e lá para trás, a espaços, ouvíamos o crepitar de armas ligeiras. Sabíamos da presença naquela área de guerrilheiros bósnios, jordanos, afegãos, albaneses, etc. que vinham de todo o mundo islâmico “ajudar” os seus “irmãos muçulmanos”.
Lá em baixo, junto a um curso de água, um grupo de pessoas fazia algo. Como ia à frente fiz sinal de paragem e rastejei até uma posição que me permitisse observar melhor. Peguei nos pequenos mas potentes binóculos “tasco” e vi então que se tratava de um grupo de guerrilheiros bósnios. Eram cerca de vinte e levavam os prisioneiros que havíamos deixado nessa madrugada com os populares. Informei os meus camaradas da situação e decidimos continuar em direcção a um ponto alto que nos permitisse ter “antena” e sermos exfiltrados. Caminharíamos paralelamente aos guerrilheiros, uma vez que também eles fugiam da zona ocupada pelos sérvios. Comemos o que nos restava das rações e seguimos. A fome e o cansaço eram agora mais uma preocupação.

Após mais de duas horas de caminhada ininterruptas e na mesma direcção, quebrando as regras de movimento, o rádio deu sinal de vida.
- Beaver four, this is Beaver zero tango five, over! – Era para nós!
- Beaver 0T5, this is Beaver 4, over! – Respondi.
- Four, what’s your mark, over?
- 0T5, we are out marked, over!
- Roger, calling again in Alpha Echo Mike, out!
- 0T5, roger and out!
Voltariam a chamar dentro de quinze minutos. Continuámos a caminhada ao longo de uma linha de alturas para noroeste, sempre a subir. Dos vales chegava-nos claramente o ruído de viaturas e o ladrar dos cães no meio da gritaria dos “caçadores”. Procuravam-nos, assim como ao grupo de guerrilheiros. Demos com um caminho de montanha onde eram visíveis as pegadas de botas militares e o padrão da sola indicava-nos que todos calçavam o mesmo tipo de bota, logo, não eram guerrilheiros. As pegadas eram bastante recentes, isso via-se pelo rebordo húmido da pegada. Estavam à nossa frente…o que preparavam?
Após um pequeno declive inclinado a norte, detectei movimento a cerca de quatrocentos metros para a nossa direita e para baixo. Instintivamente fiz sinal para agachar e rastejei até onde me era permitido observar sem ser visto. Uns vultos indistintos desaparecerem na bruma que ainda restava em alguns lugares. Ouvíamos claramente a ladainha dos bósnios na reza da manhã. Tinham parado e ficado ligeiramente para trás de nós.
- Beaver 4, 0T5 calling, over! – Era o rádio outra vez.
- 0T5, 4 listening, loud and clear!
- 4, this is 0T5, pushed the transmitting button 20 seconds, than relieve 10, over!
- 04T, starting now!
Tentavam a localização do nosso sinal rádio para nos tirar dali. Apontei os binóculos outra vez para a bruma, um pouco mais para a frente e sobressaltei-me. O grupo indistinto passava agora um regato a vau para a encosta do nosso lado. Preparavam-se para emboscar os bósnios por cima destes e do no nosso lado da encosta. Caminhavam agora fora da bruma e identifiquei-os. Eram “Tigres” (forças especiais sérvias), a rapaziada do Arkan. O nosso único caminho de saída dali para norte estava vedado e voltar para trás era ir direito ao outro grupo de perseguidores.
- Beaver 4, 0T5, come in 4!
- 0T5, 4 here, come in!
- A “Bird friend” is monitoring you. Point 274, follow the beeper and reach orange spot. The night angel is waiting!
- Pointing 274, over.
- 4, this is 0T5, roger and out.

Estávamos condenados a participar no combate. Decidimos então surpreender os “Tigres”, uma vez que a nossa posição nos dava o domínio da situação por estarmos mais altos, com o sol nas costas e por eles não suspeitarem sequer da nossa presença.
Quando os bósnios quase entravam na zona de morte, Nick lançou uma granada para o binómio da metralhadora pesada, mesmo no meio deles. O rebentamento projectou dois corpos no ar e seguiram-se os gritos dos feridos. Ficaram atordoados, de repente passaram de caçadores a caça. Quem já viu estes rebentamentos a alguma distância tem uma percepção irreal da tragédia. Primeiro é a luz do rebentamento, sem som, depois vêem-se os corpos ir ao ar e só um ou dois segundos depois nos chega o estrondo do rebentamento. Depois, só depois, vem o som dos gritos.
Abrimos fogo…tiros, rebentamentos, ordens de comando, palavrões em todas as línguas, mais tiros. Voltou o inferno num dia de sol. Num repente mães perdem filhos, filhos ficam órfãos, esposas tornam-se viúvas, é a dama de negro a reclamar a sua parte na grande representação da estupidez.
Sempre achei que morreria num dia cinzento com chuva…porquê? Nem eu sei. Quanto tempo durou? Horas, minutos, apenas uns breves instantes? Perde-se a noção de tudo. No fim estava alagado em suor, a face quente, levantei-me e mijei às pinguinhas…que sensações. A adrenalina é uma droga estupenda. Depois vem o amolecer do corpo, o nó no estômago, o zumbido nos ouvidos…Estou vivo!
Evitámos o massacre certo dos bósnios. Os sérvios, apanhados entre dois fogos, dos guerrilheiros por baixo e de cima nosso, pouco poderiam ter feito para saírem dali ilesos. De onde estávamos, foi fácil a eliminação do grupo ou de quase todo. Alguns puseram-se em fuga para norte com os bósnios no encalço, sem levar os feridos que eram agora eliminados pelos Mudjaedin.
Os guerrilheiros gritaram qualquer coisa e acenaram. Pegaram fogo aos corpos dos seus e seguiram. Continuámos a marcha e gritei mandando-os à merda. Eram tão inocentes quanto os sérvios. Fomos revistar os cadáveres em busca de comida, uma garrafa de rákia, uns pães e chouriços deram-nos alento. Ainda bem que os muçulmanos não comem porco nem bebem álcool…alguns. Arranquei o emblema de pano da manga de um deles, não tinha mais de vinte anos. O vento agitava-lhe uma melena de cabelo loiro…parecia vivo. O emblema, escrito em cirílico, indicou-me que eram da Força Delta dos sérvios da bósnia.

Ao entardecer desse dia, numa clareira em altitude, aguardando pelo heli, o rádio avisou-nos para que procurássemos abrigo porque a aviação iria atacar tropas que se aproximavam da nossa posição.
O sol já desaparecia quando o rugido de dois aviões nos arrancou do torpor do cansaço e do álcool. As explosões, muito perto de onde estávamos, confirmavam que o grupo que nos perseguia havia três dias, se encontrava muito perto. Pedras lançadas ao ar pela violência das explosões vinham-nos cair em cima, tão perto estavam de nós os soldados sérvios. No ar, o cheiro a combustível queimado misturava-se com o da cordite das bombas dos aviões. Ouvimos os helis e lançámos uma granada de fumo laranja para nos localizarem. Um deles circulou a clareira enquanto outro descia para nos recolher. Fui o último a embarcar e já lá dentro, olhando para o relógio, vi que estávamos a 24 de Abril, dia do aniversário da minha mãe. Faltava o sub-team Hotel, que só foi recolhido vinte minutos depois de nós a menos de um quilómetro de onde nos recolheram. Uma hora depois aterrávamos em Butmir. Tomámos banho e embebedámo-nos.
Como estariam os meus filhos? Os meus pequeninos do pai…soltei umas lágrimas quando lhes revi a foto na porta do cacifo. Nick deu-me uma palmada nas costas e gritou qualquer coisa. No dia seguinte meteram-nos noutro helicóptero e fomos descansar três dias para Split, na Croácia. Que longe estava a guerra. Não me orgulho de algumas coisas que fiz e rezo a Deus para que poupe os meus ao que passei. Fi-las pelos meus camaradas, pelos meus irmãos de armas…só por eles.
A guerra nunca acaba para quem sai dela com vida…nunca mais!

18 Comments:

Blogger Princesola said...

Sempre em silêncio... por respeito e por algo mais.

09 março, 2007 10:14  
Blogger António Lisboa Gonçalves said...

Relatos impressionantes, uma vez mais, Manel.
Estupido mundo este e concordo contigo, que os nossos filhos não tenham que passar pelo mesmo.
Abraço companheiro.

09 março, 2007 10:51  
Blogger MRelvas said...

Manel!Camarada,relato vivo e com cheiro...

Se não te importas vou-te transportar este texto para o Passa-Palavra Jornal dos Comandos.

Aqui te deixo com um abraço:

AMIGO
Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra amigo!

"Amigo" é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

"Amigo" (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
"Amigo" é o contrário de inimigo!
"Amigo" é o erro corrigido
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada!

"Amigo" é a solidão derrotada!
"Amigo" é uma grande tarefa,
É um trabalho sem fim,
Um espaço sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
"Amigo" vai ser, é já uma grande festa!
Alexandre O'Neill, No Reino da Dinamarca

Mário Relvas

09 março, 2007 23:44  
Blogger adesenhar said...

olá manel

li mais um dos teus impressionantes relatos.

como sabes não comento.

mama sumae

abraço manel

11 março, 2007 22:24  
Blogger as velas ardem ate ao fim said...

Chego aqui e fico arrepiada e muda.
Respeito é o que sinto.

bjinhos

12 março, 2007 20:28  
Blogger Paulo Sempre said...

O meu respeito a todos os combatentes, que sofreram as agruras da guerra...
Porque:
Eu concordo com «John Donne» quando diz:
"Nenhum homem é uma ilha isolada, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa - ou noutro qualquer lugar - ficará diminuída, como se fosse a casa do teu amigo ou da tua própia casa. A morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do género humano. E, se dobram os sinos, não perguntes por quem dobram - eles dobram poi TI."

PS: Obrigado pela visita.
Abraço
Paulo

12 março, 2007 22:07  
Blogger Henrique Felix said...

Viva camarada Manel
Cheguei até aqui atravez de MRelvas,e fiquei vidrado ao ler as tuas memorias,simplesmente espetacular,já pensaste em escrever um livro.
Acho que tens jeito.
abraço

12 março, 2007 23:32  
Blogger amita I said...

As tuas palavras estão vivas, Manel. Com elas entramos em cada momento descrito e contigo sofremos.
Esta tua frase diz tudo: "a dama de negro a reclamar a sua parte na grande representação da estupidez"
Com muito carinho, um grande abraço.
Bjinhos

13 março, 2007 11:39  
Anonymous S.Silva SAj InfCmd said...

Ramon, mais uma vez venho aqui largar umas larachas. Quem te conheceu e conhece sabe porque não foste mais longe dentro desta instituição em queda. Foste sempre verdadeiro demais para estes gajos. Não foi a instituição militar que perdeu um grande operacional foi a sociedade civil que ganhou um advogado.
Por isso grito bem alto!
MAMA SUMAE!

13 março, 2007 15:26  
Blogger Um Poema said...

"A guerra nunca acaba para quem sai dela com vida... nunca mais!"
Talvez esta seja a verdade mais absoluta que me foi dado ler, sobre a guerra e as suas consequências.
Aceita o meu respeito, solidariedade e muita estima.
Um abraço

13 março, 2007 23:07  
Blogger DIGNIDADE said...

Olá Manel!
Consegui visitar-te e encontro mais um intenso pedaço de ti e dos teus "irmãos"...
Sem palavras!
Digo-te apenas que só um Homem muito íntegro e honrado, "sai" de uma guerra e consegue dizer que não se orgulha de tudo o que fez, sabendo que além do instinto básico de sobrevivência e um ideal em que se acredita (ainda que possa acontecer só numa fase inicial), mantém a cabeça erguida pelo respeito que a Vida e a Fraternidade lhe merece. A tua honra, coragem e capacidade de manteres a lucidez depois de tantos encontros com a senhora de negro, é o melhor legado com que podes presentear os que te amam e estimam.
Todo o meu respeito e estima.
Um bj!

14 março, 2007 05:20  
Blogger leituras said...

Alguém afirmou, num 10 de Junho, junto ao paredão do Bom Sucesso, com absoluta verdade: "...uma vez combatente. sempre combatente..."
Leio agora aqui outra verdade tão absoluta como aquela: "...A guerra nunca acaba para quem sai dela com vida..."
São verdades como estas que são, ou parecem ser, difíceis de entender por tantas mentalidades medíocres, que abundam neste país em que a mediocridade impera.
É ténue, difusa mesmo, a linha que separa a coragem do combatente da abjecção do assassino.
Para o assassino não há limites, olha a guerra com indiferença e usa-a.
O combatente, porém, sente a ferida, que se abre na sua alma, cada vez que tem que disparar a sua arma.
São essas feridas, que não se veem mas não saram nunca, que continuam a ser ignoradas pelos medíocres que por aí abundam.
Talvez por isso se atribuam a assassinos os galardões que aos combatentes se deveriam destinar.
Respeito-te e saúdo-te.

Uma boa semana.

14 março, 2007 14:14  
Blogger Barão da Tróia II said...

Excelente, que mais posso dizer.Boa semana

15 março, 2007 09:09  
Blogger Um Poema said...

Obrigado pelas tuas palavras.

Será uma honra ver o meu link constando neste espaço.

Boa semana

15 março, 2007 13:12  
Anonymous Anónimo said...

Na guerra nunca há vencedores nem vencidos, só victimas.
Não há "bons" nem "maus", só a inconsciência dos que lutam sem saber muito bem o porquê, e a ganância dos que os enviam lá.
Motivos??: Religião, ambição, primacia da raza, poder, "justiça"(?!? ), economía... e mais mil... São só palavras que nos apresentam. A verdade é sempre só uma bem diferente : A Intransigência, a intolêrancia e a ignorância.
Não, para quem passa por ela de qualquer forma, a guerra nunca acaba....... E o difícil é conviver com isso.
Espero que tu o consigas.

16 março, 2007 15:24  
Blogger Lumife said...

Amigo Manel mais um texto brilhante que devia ser mais conhecido, mais lido.

Será desta vez que nos vamos encontrar em Alvito...?

Um abraço


II ENCONTRO DE BLOGS EM ALVITO


AOS 21 DE ABRIL DE 2007


ESTAMOS ELABORANDO O PROGRAMA:

-COMUNICAÇÕES S/ BLOGS

-MOMENTOS DE POESIA

-CANTARES ALENTEJANOS

-VISITA AO PATRIMÓNIO CONCELHIO


MARQUE JÁ NA SUA AGENDA!


MAIS NOTÍCIAS MUITO EM BREVE.

18 março, 2007 19:45  
Blogger leituras said...

Um precalço impediu-me de chegar mais cedo.
Obrigado pelas palavras simpáticas.
Claro que podes linkar-me. Já fiz o mesmo, mesmo sem prévia concordância.

Boa semana

19 março, 2007 00:03  
Blogger O Transmontano said...

Com um grande abraço, cito aqui um analfabeto de quem gosto muito pela coragem, pela coerência e pela inteligência que outros não têm:
- À guerra, não ligues meia,
Porque há os grandes na terra,
Vendo a guerra em terra alheia,
Não querem que acabe a guerra.
Permite-me que use este teu espaço para enviar um grande abraço ao camarada mrelvas.
Parabéns pelo seu poema. São essas as palavras que eu gosto de ler. Um abraço a todos. Bem-Hajam "AMIGOS"
Obrigado Bambino pela tua compreensão. Força na vida que a morte é já a seguir. Saúde e um grande abraço.

19 março, 2007 11:38  

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