sábado, junho 03, 2006

Mortes anunciadas

Face ao que se passa em Timor não poderia estar mais tempo sem escrever uma palavra que fosse. Aquele povo mártir merece-o e merece ser livre e independente dentro das regras democráticas, mas sem sofrer mais por uma democracia que nunca conheceu.
Com a eleição do Sr. Mari Alkatiri para Primeiro-ministro a revolta seria uma questão de tempo, pois era já sabido nos círculos políticos europeus, assim como nas Nações Unidas, que esse senhor iria favorecer mais uns do que outros, mesmo contra o avisado parecer do Presidente Xanana Gusmão.
Assim sucedeu quando tocou a desmobilizar pessoal das Forças Armadas, “despedindo” os que mais lhe convinha, isto é, os elementos pertencentes às tribos da parte ocidental da ilha. Coincidência ou não, região onde obteve menor votação para o seu cargo de PM de “todos” os timorenses.


Fiquei chocado quando na televisão vi e ouvi chamar “rebeldes de bandos armados” a ex-combatentes pela liberdade de Timor, contra a ocupação indonésia. Informem com verdade o povo.
Esses “rebeldes” sofreram na pele uma guerra em altitude, contra um inimigo mais bem armado, equipado e beneficiando de alguma passividade internacional. Lutaram sem apoios de ninguém, capturando armas, munições, fardamento e até equipamento a um inimigo com treino e logística norte-americana. Que bem aplicaram Sun-Tzu.
A partir do nada iniciaram a destruição física e moral de um inimigo cruel e violador assumido dos Direitos Humanos, confinando-o aos aglomerados populacionais e interditando-lhe as alturas. A resposta a esta excelente capacidade de guerrilhar veio com os massacres de Santa Cruz, com o beneplácito dos EUA e a arrogância de Ali Allatas. Serão rebeldes agora como o foram antes? A resposta é óbvia.


Onde estavam nesse altura Alcatiri, Ramos Horta e outros “combatentes”? Seguiam o exemplo dos “heróis” portugueses que lutaram a partir do estrangeiro contra o fascismo, na dura vida de Paris ou Argel. Justiça lhes seja feita, a dureza duma casca de lagosta não é para qualquer um.
Esses homens que agora apelidam de rebeldes e insurrectos, para além de se terem exposto em combate na defesa de um Timor livre, viram as suas famílias perseguidas e torturadas pelo ocupante e seus simpatizantes. Alguns perderam tudo pela causa de um Timor livre, até as mulheres que se suicidaram após as violações pelos indo néscios. Serão rebeldes? Apenas querem subsistir, eles e os seus, e agora até o magro soldo de militar com que se contentaram lhes retiraram. Se um dia regressarem às montanhas depois admirem-se da dificuldade que é tirá-los de lá.


O Presidente Xanana Gusmão empossou hoje Ramos Horta com a pasta da Defesa, ao menos será aceite pelo povo uma vez que Xanana tem autoridade moral e peso polítco para fazer valer a sua escolha junto do povo, pois para além de ter sido o comandante da guerrilha, de ter sido denunciado a partir de dentro e de ter estado preso, é o único homem gerador de consenso em Timor.
Esperemos que tudo volte à normalidade e que a justiça da recompensa aos combatentes seja reposta. Fica aqui uma lição para os paladinos da democracia, para todos os que confundem exercício de um mandato democrático com livre arbítrio.
Como eu gostaria de ver agora outra vez velas e panos brancos por Timor, mas a democracia tem destas coisas, quando se está debaixo de uma ditadura quem contra ela luta é herói e resistente, quando a ditadura cai e se torna numa democracia os que se manifestam tornam-se rebeldes e insurrectos. Ainda se a democracia fosse o que significa, Demo (povo) Kratia (poder), mas longe disso, muito longe disso.
Há uma máxima da República Romana que jamais esqueço:
Os gládios devem ceder o passo às togas, mas, a bem da República, deverão tolhe-lo, assim estas vão longe demais.
Após a chacina de Santa Cruz, vários foram os militares portugueses e elementos do GOE que se ofereceram aos representantes das FALINTIL, para, através de canais confidenciais da resistência, poderem desembarcar em Timor e contribuir para a derrota do invasor indonésio.
Faziam-no entrando de licença registada, sem gastos para a República, mas o governo da altura negou essa possibilidade, esquecendo que Timor, à luz do Direito Internacional, ainda estava sob administração portuguesa. Um dia a história também contará esta verdade, a não ser que, tal como no passado, os políticos deturpem os acontecimentos emergindo eles como heróis. Fizeram-no em 1910 e em 1974, fá-lo-ão de novo porque lhes está na pele.

15 Comments:

Blogger Menina_marota said...

Já é apanágio, que eu realmente aprecio, em louvor da verdade democrática dos factos, a tua forma explícita de revelares o que pensas e a verdade dos acontecimentos, que tantos querem, por vezes, ocultar.
Timor merece ser respeitada. E, aqueles que lutaram pela Liberdade e independência, também.
Gostei de te ler. Gostei deste “grito” de um Homem a favor de outros Homens…pela Liberdade de quem lutou contra tudo e contra todos, pela Democracia no seu País.

Um abraço e bom fim de semana ;)

03 junho, 2006 23:21  
Blogger lena said...

senti este grito e grito também ,
pelo respeito que Timor merece, pela liberdade, pela Democracia, pelos acontecimentos do passado que não queria reviver
dói, é como se fosse uma parte da minha terra,
muito há para contar e a verdade virá, acredito ainda que sim,
não foi em vão que o meu pai lá esteve, não foi em vão que vi tantas lágrimas no rosto de minha mãe, não foi em vão que sem saber o porquê sofria

sim grito contigo, meu querido amigo

votei em ti, sim não poderia votar em mais ninguém, és merecedor desse voto


beijinhos meus e o meu abraço, querido amigo

lena

04 junho, 2006 00:18  
Blogger O Transmontano said...

Bem vindo Grande Companheiro!!!!
Eu sabia, isso que tens, coragem, e muitos milhões não conhecem, está-te no sangue. É isso! voltar à cara do Toiro mesmo com a jaqueta toda esfarrapada e ensanguentada....
Pois é, vais desculpar-me o abuso, mas eu tenho que o dizer. Estes políticos de merda, que agora estão muito preocupados, até chamam à televisão para falar sobre Timor, um oficial general, Lemos Pires, que abandonou tudo e todos, que deixou que ficassem presos uns 13 ou 15 militares, para agora se arvorar de conhecedor de um território, que nunca conheceu e se o conheceu, foi de helicóptero, como todos estes borda-merdas de militares que hoje são generais, o fizeram aquando da guerra do ultramar...
Conheço muitos e até os aponto.... E tu também sabes quem são. Aliás, enquanto estive no activo, denunciei muitas cobardias, muitos falsos heróis e convidei muitas vezes estes ranhosos destes pseudo-chefes militares a visitarem o monumento dos mortos da guerra do ultramar e provar-lhes que cerca de 90% dos que ali constam foram militares do QC (Milicianos) pagos a troco de nada, muitos são hoje feridos de guerra, outros milhares, desiquilibrados psicologicamente e nem os próprios militares da CEE de hoje, que tu e eu conhecemos, têm respeito por homens com um passado sublime em Defesa da Nossa Pátria, que hoje é defendida por Mercenários do futebol, com um povo estúpido a corresponder ao apelo de um estrangeiro para por bandeirinhas, made in china, nas janelas....
É este o teu e o meu País! Um País de Camonianos Políticos que só vêem de um olho, e, por sinal até o olho que não vê nada, quem rege os destinos de um País esfrangalhado,descrente, com alguns a serem pagos a peso de ouro para desempenharem uma missão difícil (DEPUTADOS) que os obriga a um desgaste terrível de tanto ócio que passam naquela AR, que mais parece a Feira de Carcavelos, com os Lelos todos a venderem camisolas, pelo preço mais barato possível.
Enfim, e tudo isto, como eu disse, digo e direi sempre e onde for preciso, com a conivência porca e vergonhosa de uns chefes militares de merda, que servem o poder político de um modo mais canino do que um cão que tive, que tinha inteligência e personalidade e por vezes arreganhava os dentes para manter a cauda erecta e o funcinho bem erguido.
Meu grande AMIGO, desculpa o uso do teu blog, para desabafar, conheces-me e sabes o que sinto e como sinto.
Ainda no activo, nunca tive medo, hoje na reserva, nem pensar conhecê-lo (o medo) e por isso, e para que as despesas da responsabilidade não fiquem no anonimato e a ti não te persigam, aqui fica para os lacaios do poder a minha identificação.
José Neves Rodrigues, SARGENTO MOR NA RESERVA.
Se achares por bem remover o meu comentário, aceito e compreendo, afinal o espaço é teu e eu sou apenas um grande amigo, um admirador das tuas capacidades e um homem que se for preciso, quando for preciso, não virará a cara à luta e estará ao teu lado para o que muito bem precisares.
Um abração meu grande amigo e bem-hajas por teres acedido ao teu melhor juíz, a CONSCIÊNCIA.

04 junho, 2006 23:23  
Blogger Isabel-F. said...

Bom dia,

Espero que esteja tudo bem contigo. Venho pedir-te desculpas pela minha ausência ... que vai continuar ... amanhã vou de férias ... e só estarei de regresso no dia 16.

Beijinhos

05 junho, 2006 12:01  
Blogger António Lisboa Gonçalves said...

Amigo e compadre Manel:

Timor, infelizmente para esse povo, ainda há-de ser noticia pelos piores motivos, e tudo começou quando uma invasão anunciada pela Indonésia encontrou um povo abandonado e uma mão cheia de Militares Portugueses igualmente abandonados à sua sorte.
As lutas pela cadeira do poder não deixarão que se atinja a tão almejada estabilidade e certamente serão outros, que não nós, a tirar proveitos económicos dos recursos Timorenses. A referência a Portugal irá desvanecer-se e outros valores se levantarão, só que até lá ainda se sofrerá muito por parte de um povo tão martirizado e os abutres de sempre estarão a sobrevoar, pacientemente à espera!

Um abraço.

05 junho, 2006 22:12  
Blogger lazuli said...

boa noite, Manel. Escreveste um "artigo" magnífico sobre Timor, uma sintese dos acontecimentos que ultrapassa a maioria dos escritos que os jornais têm publicado sobre essa martirizada terra.
Pelo menos na minha modesta opinião, de leitora moderada que se vê baralhada com a pressão dos media, onde é tão difícil distinguir e saber onde começam os factos e acabam os interesses pessoais.

E aproveito para te agradecer.

Ainda bem que voltaste.

Abraço

Fernanda

06 junho, 2006 00:15  
Blogger Micas said...

Timor sempre foi uma terra martirizada. Não fazia ideia de uma data de coisas que aqui nos contas. Um grande, grande Bem Haja a ti Manel, pela tua coragem, pela tua partilha de conhecimento (de outra forma nunca saberiamos o que realmente se passa nos "bastidores" e por seres essa pessoa especial e maravilhosa que és. BEM HAJAS!
Beijo

06 junho, 2006 07:55  
Blogger paper life said...

Anda tão triste o Mundo, o Mundo todo!

:(

Até Julho Manel. Ando a despedir-me, vou de férias. Passarei se puder a ler os amigos.

Bjs. :)

M

09 junho, 2006 14:27  
Blogger LUA DE LOBOS said...

muito obrigada pelo teu artigo aqui tão claro e sem papas na tecla:)
força Amigo
maria de são pedro

10 junho, 2006 09:21  
Blogger marakoka said...

jocas maradas para ti

10 junho, 2006 21:38  
Blogger Menina_marota said...

Vou acompanhando as notícias que chegam de Timor de coração apertado...

Deixo um abraço na calma da manhã... ;)

11 junho, 2006 09:18  
Blogger madalena pestana said...

Entendo-te acho e concordo.

Esse Ramos Horta já me fazia pee de galinha antes da independência.

Em Portugal houve coisas parecidas depois do w25: eram todos heóis.

Droga! Será que nada muda?

11 junho, 2006 22:43  
Blogger madalena pestana said...

pele*

11 junho, 2006 22:43  
Blogger Micas said...

Onde andas Manel??

19 junho, 2006 10:24  
Blogger dctorx said...

Realmente chocante

abraços

dr x

10 julho, 2006 20:40  

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