domingo, junho 11, 2006

10 de Junho... Dia de quê?

Mais um 10 de Junho, dia de Portugal e da Lusofonia, dizem. Homenagearam-se os ex-combatentes do ultramar e bem, pese embora as migalhas que os sucessivos governos lhes têm atirado a título de compensação por não terem fugido para a França, URSS ou Argélia, ou não terem ido estudar para o estrangeiro. Nem todos tinham posses e possibilidades para tal. Houve também aqueles que foram para África com ideais patrióticos e que, tal como os naturais de lá, brancos e pretos, combateram pelo Portugal de então, do Minho a Timor, uno e indiviso.
Hoje preocupam-me os naturais da Guiné, Angola ou Moçambique, que integraram as fileiras das nossas Forças Armadas e que ficaram nas suas terras, abandonados pelos políticos do pós-25 de Abril. Nas novas sociedades que surgiram foram marginalizados, perseguidos, assassinados, assim como aos seus filhos e de cá, da Pátria que serviram, nada…esquecimento e desresponsabilização.
Já agora senhor Comandante em Chefe Aníbal, para quando a lembrança daqueles que serviram, morreram ou ficaram feridos na Bósnia-Herzegovina, no Kosovo, em Timor e no Afeganistão pela causa da Paz?
Paradoxo dos paradoxos, levámos Jeeps espanhóis para o Afeganistão porque as velhinhas Chaimites estavam desactualizadas, mas se o que ocorreu fosse com uma delas talvez não tivesse havido lugar a homenagem fúnebre. Talvez!


Na invicta, cidade onde se celebrou o 10 de Junho com parada militar, numa vã exaltação de um orgulho e capacidade militar que não existe, um Carro de Combate M60-A3 negou-se a “andar” mais. Esta máquina, tal como os seus antecessores, o M48, necessitam de “mexer” para manter juntas e outros componentes lubrificados e assim não se deteriorarem. Mas o momento cómico proporcionou-o o sôr engenhêro, que num assomo patriótico e másculo, disse que há dez anos que se vem fazendo um esforço para modernizar as FFAA e que há uma década estes equipamentos não existiam. O Pinóquio não dizia melhor.
Pois é sôr engenhêro, quer os M113, quer os carros de combate M60, todos aqueles com lagartas como os caterpillars, estão em Portugal há mais de 15 anos, quer nas unidades de Cavalaria, quer nas de Infantaria Mecanizada, portanto antes de se por a largar ameixas para jornalista desinformado, aconselhe-se com quem sabe.
Aquele em particular, é o 2º carro, do 1º Pelotão, do 3º Esquadrão de Carros de Combate e se estava em condições de ir ao desfile, imagino os outros. Mas mantenha a calma que já não o envergonho muito mais, até porque o sôr engenhêro não é de se envergonhar após mentir descaradamente aos portugueses. Sabe, aquela coisa castanha nas lagartas não é tinta, é ferrugem e sabe como eu sei? É que aquelas máquinas quando estão “rodadas” os elos que unem as lagartas estão polidos, brilhantes, e se estão castanhos, logo ferrugentos, é sinal que a montada há muito que não é trabalhada.
Se quer mesmo modernizar estas máquinas e deixar de ser Pinóquio, comece por mandar retirar a torreta do Chefe de Carro e colocar-lhe uma escotilha tipo Gollan, pois o M48 já estava mais modernizado nesse aspecto fruto da experiência israelita. É que debaixo de um bombardeamento de artilharia a deslocação de ar provocada pelos rebentamentos próximos costumava arrancar a torreta e tinha o estranho hábito de levar o chefe de carro com ela. Ah! Já agora providencie também blindagem reactiva, que isso é que modernizava mesmo a máquina.


Em Timor, o Major Alfredo Reinaldo, oficial da Polícia Militar e líder dos revoltosos, aceita negociar o fim do conflito com a intervenção do Presidente Xanana Gusmão, do Ministro da Defesa, Ramos Horta e com a mediação da Igreja.
Este homem, cujo Quartel-general é em Maubisse, nas Montanhas a sul de Dili, foi um valoroso combatente durante a ocupação indonésia e revoltou-se quando o governo da FRETILIN, liderado por Mari Alkatiri, ordenou a intervenção do Exército contra os 600 “dispensados” que se manifestavam em Dili no pretérito dia 28 de Abril.
Este oficial, abandonou a cadeia de comando das Forças Armadas no início de Maio, em protesto contra o envolvimento de militares na repressão de camaradas de armas. A sua dignidade ficou sobejamente demonstrada, lembrando aos poderes civis que o exercício da democracia não pode, nem deve passar por “partidarites” étnicas e decisões injustas. Houvesse como ele algum por cá e já outro galo teria cantado.
O governo timorense anunciou a morte de 5 pessoas nessa manifestação, mas os militares revoltosos dizem que morreram pelo menos 60 pessoas e pedem uma investigação internacional, coisa que Mari Alkatiri dispensa…pudera.


Tudo a 10 de Junho, dia da Lusofonia, de Camões e das Comunidades. Dia em que lembrei a vergonha dos “secos e molhados” no Terreiro do Paço, os processos disciplinares aos militares das Associações Militares, as comendas “en”comendadas, o desemprego, o último lugar em muita coisa, os soberbos ordenados dos administradores da Galp, as cunhas de ministros para as filhas, de juízes para os filhos, as ajudas de custo dos deputados da nação, o vencimento do Presidente do Banco de Portugal e o da Reserva Federal Norte Americana, o silêncio dos jornalistas que este governo bem comprou ao não lhes mexer no sub-sistema de saúde e de aposentação.
Querem que me sinta orgulhoso? De quê? De não conseguir poupar para garantir o futuro dos meus filhos? De saber que eles nunca terão emprego na PT, porque isso é só para os filhos das elites?
Senhores da classe política, neste 10 de Junho, eu, patriota convicto, solenemente porque o lugar a que me refiro tem mais dignidade que vós, alto e de forma tonitruante grito:
- VÃO…!
Pois é, a educação que recebi não me permite mandá-los para o lugar que, apesar de imundo, a vossa presença ainda conspurcaria mais, mas vão na mesma que lá sentir-se-ão entre iguais.

22 Comments:

Blogger António Lisboa Gonçalves said...

Deixa que me junte a ti no grito:
- VÃO...!

chega de nos gozarem!!!


um abraço!

11 junho, 2006 23:16  
Blogger Menina_marota said...

Estou aqui a ler-te e tanta coisa a passar-me pela cabeça.

Pelos blog's por onde já passei, na minha ronda matinal, a revolta é cada vez maior, notando-se que cada vez mais, as pessoas já não conseguem engolir em seco, o que lhes vai na alma.

Atrevi-me a deixar ali no Barão de Troia, o teu link.
O dele é este http://baraodatroia2.blogspot.com/

se leres o seu texto e os comentários, perceberás porque o fiz.

Mais uma vez admiro a frontalidade das tuas convicções. Mais Homens como tu houvesse e talvez, este País fosse diferente.

Deixo o meu abraço de admiração

12 junho, 2006 11:32  
Blogger Barão da Tróia II said...

Compadre gostei porra, vou voltar. Só uma coisa há uns anitos estive no RC4 e só um esquadrão estava operacional, os outras apesar da palamenta ter de ser escoifada todos os dias estavam mortinhos da silva porque na havia gasoil par fazer andar os mostrengos. O Sr. engenhero percebe tanto daquilo como eu de retretes.

12 junho, 2006 11:43  
Blogger Lumife said...

Compadre de facto este Portugal está está surdo e cego, abstrato e ausente.
Tudo quanto interessa é saber se a selecção ganha ou não.
Vive-se o dia a dia sem qualquer pensamento no futuro.
Algo vai de mal a pior e insensìvelmente vamos-nos abeirando do precipício...

Continua com os teus textos que precisam de ser mais divulgados.

Um abraço.

12 junho, 2006 17:37  
Blogger Micas said...

Porque é que todos os Portugueses não são como tu? se assim fosse acredito que faria sentido celebrar o 10 de Junho, infelizmente há poucos como tu e o 10 de Junho há muito foi descaracterizado.
Bem hajas Manel

12 junho, 2006 17:50  
Blogger O Transmontano said...

Nem de propósito!!!! Hoje, um sr. oficial, quando me preparava para tomar o meu pequeno almoço, abeirou-se de mim e perguntou-me:
-"Então, que diz do 10 de Junho?"
Fê-lo, mas muito em surdina, quase que amedrontado pelo ataque inimigo....
Nesse momento, perguntei-lhe:
- Qual 10 de Junho? Isso é o quê?
Espantado, olhou-me quase como quem queria usar do RDM para me punir, mas faltou-lhe uma coisa que os homens de hoje não têm....
Mas, para que não ficasse com dúvidas disse-lhe:
-Sabe? Eu só festejo o 10 de Junho com os Portugeses como eu e não com Oportunogueses.....
Quando era miúdo, ficava de cabelos em pé quando assistia às paradas militares e tinha um orgulho imenso ao ouvir o Hino Nacional e nem sequer me atrevia a pisar a sombra da Bandeira Nacional que o Sol projectava no chão.... Como quer que eu celebre 10 de Junho com oportunistas e filhos de ..... que até a própria Bandeira pisaram e este povo estúpido, votou nele 2 vezes para a Presidência da República?
"Esta é a Ditosa Pátria minha amada que tais filhos da putaguesa tem..."
Desculpa Manel mas, ou eu deixo de ler os teus textos e não uso o teu espaço, ou então empolgo-me com eles e faço este papel de mau-hóspede, mal educado e junto a minha à tua voz e digo mesmo: - Vão, vão à merda seus sacanas que este País, já está por demais poluido.
Um abraço e desculpa-me estes desabafos. A minha raiva contra estes cães é tão grande que se mais houvera como eu e como tu, já os tinha-mos engolido vivos....

12 junho, 2006 20:50  
Blogger Alma de Poeta said...

Olá Manel...encontrei o teu endereço noutro blog e reparei que tens um blog bastante interessante, dai lembrar-me de te indicar um outro blog do género http://umpoemadevezemquando.blogspot.com
Deixo um beijo

13 junho, 2006 22:27  
Blogger Um Poema said...

Cheguei aqui pela mão de "Alma de Poeta" e senti-me em casa. Obrigado "Alma de Poeta" por me indicares o caminho da minha gente.
Sou ex-combatente, como todos os Homens (falo de Homens, não de desertores)da minha geração, e disso me orgulho. Ao meu país nunca pedi nada além de respeito.
Mas enquanto não vir HOMENAGEADOS e CONDECORADOS cada um dos nomes gravados no paredão do Bom Sucesso, enquanto não vir desmascarados os traidores que entregaram, no pós 25 de Abril, os meus camaradas nascidos em Angola, em Moçambique ou na Guiné, aos novos senhores, para que os fizessem desaparecer, enquanto não vir responsabilizar os vendilhões pela traição aos Cabindas, não acreditarei no futuro de Portugal.
Ler-te, foi como respirar uma lufada de ar fresco.
Vou voltar.
Um abraço

13 junho, 2006 23:16  
Blogger Um Poema said...

Na sequência quero dizer-te que vou adicionar-te à lista dos meus favoritos, para te poder visitar sem andar à procura.
Um abraço

13 junho, 2006 23:23  
Blogger lazuli said...

« Ega porém, incorrigivel n'esse dia, soltou outra enormidade:
- Portugal não necessita reformas, Cohen, Portugal o que precisa é a invasão hespanhola.»

Eça de Queiróz, in "Os Maias

14 junho, 2006 04:31  
Blogger agua_quente said...

Pois, eu também os mandaria para esse lugar. Aos que lá estão e a bastantes outros. Só que há alguns sentimentos que esta data costuma "ressuscitar" com os quais já não concordo, de forma alguma.
Beijos

14 junho, 2006 19:00  
Blogger Mikas said...

Ai Portugal portugal

14 junho, 2006 20:02  
Blogger Doutor X / Elisabete said...

Somente beijos por enquanto...voltarei pra ler...já vi q é interessante como sempre. Bjs, Bete

14 junho, 2006 21:56  
Blogger Menina_marota said...

Passei... deixo um abraço e bom fim de semana ;)

15 junho, 2006 00:26  
Blogger maria said...

Lúcido e necessaria e desassombradamente acutilante como sempre, Manel...
Tanta falta de vergonha na cara grassa neste país!!!...
Beijo

15 junho, 2006 22:29  
Blogger lena said...

Manel, as tuas convicções fazem com que te admire cada vez mais. escreves com tanta verdade e sempre com um grito que chega até mim, onde consigo juntar a tua voz à minha voz
a revolta é grande, cada vez maior, tanta coisa que está mal e necessitava de ser desmascarada
este país é de cegos e surdos e ler-te consegues apaziguar a revolta que em mim existe, sinto-me ao meu lado, nesse grito e que força tens, as tuas palavras vão direitinhas ao cerne da questão

obrigada por escreveres assim, pelas tuas partilhas que me ajudam a não sentir tão só neste país onde a mentira e a falsidade abundam

um beijo meu querido amigo e um abraço cheio de carinho

lena


um fim de semana descansado, onde um raio de sol te faça companhia, como se fosse eu meus amigo

lena

17 junho, 2006 12:26  
Blogger marakoka said...

sempre coerente , sempre lúcido
gostei de ler.te (gosto)

jocas maradas de tempo

18 junho, 2006 19:36  
Blogger adesenhar said...

pela parte que me toca
obrigado Manel.

quanto aos carrinhos blindados pouco entendo, mas fiquei a saber que ainda há Srs Engenheiros empíricos, a enviar patacoadas a uma imprensa que também nos habituou a situações ridículas como estas.

Foi apenas uma parada Simplex.

Eu não vi mas gostava de ter assistido
a este desfil carnavalesco.

abraço Manel

mama summae

esquisso: Já está bom o teu blog, já entro bem sem ser atingido por um atirador furtivo.
eheheheh

18 junho, 2006 20:06  
Blogger Lumife said...

Compadre Manel se quiseres e puderes aparecer pela Festa do Barão lá estarei para brindarmos.

Um abraço

19 junho, 2006 12:03  
Blogger goticula said...

Obrigada, Manuel.
Gosto do teu blog, virei com mais tempo.

Olha, quando estudava ficava extasiada com os feitos dos nossos antepassados.
Agora mais madura e informada, olhe para o país e fico muito triste com tudo isso.
Quando um ministro diz que o nacionalismo é bacoco. O que poderemos pensar!

19 junho, 2006 12:04  
Blogger Luna said...

Cada vez mas os valores estão invertidos.Que fazer se só alguns sentem isso.
beijinhos

19 junho, 2006 21:33  
Blogger Isabel-F. said...

Oi Manel,
Mais um fantástico texto.
Adorei....

Tenho tanta vergonha disto:
"Hoje preocupam-me os naturais da Guiné, Angola ou Moçambique, que integraram as fileiras das nossas Forças Armadas e que ficaram nas suas terras, abandonados pelos políticos do pós-25 de Abril".....

Beijinhos

27 junho, 2006 13:28  

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