sábado, março 04, 2006

Tis e Tias da minha terra!

O Alentejo é de facto um mundo à parte de tudo o resto, da mesma forma que o será o Minho ou outra qualquer região de Portugal. Como dizia a minha avó Joaquina: “Cada roca com sê fuso, cada terra com sê uso!”
No entanto no Alentejo há mais qualquer coisa para além de uma forma singular de estar na vida, tem pessoas de uma simplicidade tal que a sabedoria dada pelos anos que carregam, encheriam de inveja muito académico que por aí há imbuído de um pretenso conhecimento absoluto do saber.
Voltei recentemente ao meu Alentejo, já que me sinto um imigrante em Lisboa e é assim não por um pseudo regionalismo bacoco assente em premissas de uma qualquer superioridade, antes porque nunca me integrei na cidade, nem as pessoas me fizeram sentir integrado. Opções de vida.
Retomando, voltei ao meu cantinho natal e descobri, ou penso ter descoberto, alguns dos maneirismos e modas que afectam o “Trotinete-set” cá do burgo. Ao longo dos anos sessenta e setenta havia um grupo de gente, com muito dinheirinho, que viajava de festa em festa, da Europa para os EUA e vice-versa, de avião a jacto (Jet). Como constituíam um grupo singular daí resultou o termo set. Nascia assim o conceito de Jet-set, que hoje, lamentavelmente, muita gente, entre os quais se destaca uma larga maioria de estudantes universitários de comunicação social, não sabe o que significa. Assisti a este fenómeno na semana anterior ao Carnaval, num auditório de uma Universidade da capital quando o “Guest-speaker” os interpelou sobre a origem do termo e ao qual responderam, na sua grande maioria, por braço no ar, que Jet-set seriam os canastrões que costumam mostrar-se na televisão. Noutras palavras, claro. Enfim, não se pode pretender saber tudo, mas aconselha a prudência a não responder ao que não se sabe.


Fui então ao meu Alentejo, não para brincar ao Carnaval, mas para comer comida alentejana, feita por gente alentejana e no Alentejo, condições sine qua non, para se desfrutar da verdadeira essência da vida. Manias minhas.
Na primeira manhã antes de almoço, aí pelas onze horas lá fui eu ao beija-mão aos “velhotes” do costume. Pus pés à rua e aí vou eu a caminho da tasca do Ti Gervásio, qual ave migratória que voa por instinto na rota em busca do sul.
- Bom dia meus senhores, então como vai a saúde? – Perguntei.
- É Maneli, atão vieste ao carnavali? – Perguntou o Ti Carolino, estendendo-me a mão rugosa e áspera por anos de trabalho e da qual apanhei muitos tostões para “rabuçados” ou festas na cabeça.
- É, mas isso é mais para os gaiatos, eu cá já não tenho paciência para essas coisas, vejo mas não brinco! – Disse eu.
- Ó Maneli, quando é que te posso precurar uma coisa sobre uma carta que recebi do tribunali? – Perguntou o Ti Manel Cara Dura.
- Aproveite que eu estou de maré. Então meteu-se em trabalhos? – Perguntei.
- Ná, tenho cá pra mim quisto tem a veri com ê ter sido testemunha dum caçadori aqui há um ano atrás! – Disse sem preocupação.
- Ó Ti Gervásio ponha lá aqui qualquer coisa para calar estas almas! – Disse, convidando a rapaziada grisalha para um copo antes de almoço.
Estávamos nesta conversa de Maneli pra cá, Ti qualquer coisa pra lá, quando me lembrei que o Trotinete-set luso nem inovador no trato foi, pois veio buscar, isto é, rebuscar, o termo Tio (a), aos Tios e Tias da província.
- Ó Maneli, na queres provare um cadinho de paio da Ti Zulmira? Olha que é de porco preto! – Disse o Ti Carolino.
- Venha lá disso. Alguém me sabe dizer o que é feito do General Trindade? – Referia-me ao Cabo da GNR reformado, pessoa que toda a Vila estima.
- Anda doente das cruzes, sabes como éi, uma vida entera a cavalo na faz nada beim à saúde! – Disse o Ti Gervásio, ao mesmo tempo que me dava a provar um tinto daq
ueles e me punha umas azeitonas retalhadas temperadas pela Ti Humildá. Há lá agora pitéu igual.
- Este paio é uma maravilha, digam-me lá onde posso comprar uma ou duas peças destas! Atirei enquanto saboreava o enchido.
- Olha Maneli, tas parvo ô fazes-te? Atão a minha mulheri ó eu levávamos-te lá alguma coisa por isso, antes cair e partir um braço! – Disse o Ti Carolino mostrando assim o agradecimento por lhe fazer o IRS todos os anos, para além de outras coisas. Gosto de os ajudar nestas coisas, é mais um momento de prazer para mim do que efectivamente uma obrigação.
- Ó Ti Carolino, não se zangue comigo homem, afinal o trabalho que a coitada tem e os magros tostões da reforma se forem reforçados nada de mal virá ao mundo! – Disse eu, sabendo a reacção que geraria.
- Raforços metia-te a tua mãe no fundo das calças e nos joelhos quando eras gaiato...na se fala mais nisto e acabô-se! – Disse o Ti Carolino, já quase zangado.

Lembrei-me então da minha infância e de ir espreitar a Ti Zulmira a fazer os enchidos após a matança. É a única pessoa viva daquela geração na Vila que me trata pelo meu primeiro nome, a outra era a minha querida avó. Ainda hoje é assim, não sei porquê nem me interessa. Ainda a ouço nos ecos da memória da minha infância:
- Farnandinho, queres provare uma febra? Anda cá filho ca Ti Zulmira te arranja uma no pão que fiz inda agora!
Sabia-me pela vida, assim como as fatias de pão barradas com toucinho cozido e açúcar que me costumava dar quando regressava da escola. Que saudades.
- Bom dia meus senhores! - Saudou alguém que é de fora.
- Bons dias! - Respondeu cada um por sua vez.
- Disseram-me que é aqui que se vendem uns paios e pão caseiros e como estou de passagem para Évora, lembrei-me de aqui parar. – Disse o foarsteiro.
- É sim senhore, éi aí o Ti Gervásio que vende, mas os paios e o pão são ali da casa do Ti Carolino. – Explicou o Ti Manel cara Dura.
Comprou dois paios e dois pães de meio quilo (morcates), pagou e saiu.
- Ó Maneli, tu que vives lá prá capitali tens que explicare a estes cabronaços que os paios e o pão não se fazem na rua, fazem-se em casa, mas também na sã caseros, são é à manera dos caseros antigos, o que éi difrente! – Atirou o Ti Manel Cara Dura, e eu concordei com ele pois claro. Continuou.
- Sabes que mais Maneli, e atão aqueles jornalistas da tlevisão quando precuram às pessoas que perderam as casas, o gado, enfim tudo, nos incêndios, o que estão a sentire? Dava-lhes cá uma punhada prós cornos, isso é la precura que se faça a alguém que acabô de perdere tudo?
Aproximava-se a hora do almoço, despedi-me com um até logo e saí. Cá fora soprava uma brisa fria mas com aromas de campo. A passarada voava baixo, anunciando a chuva que enegrecia já o céu a norte. Sorri e senti um arrepio de alegria. Que bom estar ali de novo.

36 Comments:

Blogger lena said...

que bem me fizeste Manel,
eu adoro o Alentejo e tu descreves tão bem essas vivências que me fizeram recordar passagens do meu pai, não em terras do Alentejo, mas no Ribatejo, onde também vivi, se bem que conheço o Alentejo, não tão bem como tu certamente.
Os meus antepassados vieram daí para o Ribatejo e o meu pai fez questão que lidássemos de perto com essa região, até porque tinha aí muitos amigos, mais tarde fui eu que me apaixonei por essa região
Hoje encantei-me contigo, meu amigo

adoro esse ambiente onde tudo são tios, mas com muito carinho


um abraço cheio de ternura e muitos beijinhos com carinho para ti Manel


lena

04 março, 2006 22:38  
Blogger paper life said...

hoje estou melancólica, volto amanhã para reler e me animar.

bfs bjs

04 março, 2006 22:59  
Blogger Micas said...

Que maravilha de começo de domingo! eu, que adoro viajar e adoro o Alentejo e as suas gentes de coração aberto, isto para já não falar da comida...
Um dia vais me dizer onde fica a venda do Ti Gervásio, vou gostar de lhe ir dar um abraço.
Bom domingo Manel

05 março, 2006 09:37  
Blogger Poesia Portuguesa said...

"...- Sabes que mais Maneli, e atão aqueles jornalistas da tlevisão quando precuram às pessoas que perderam as casas, o gado, enfim tudo, nos incêndios, o que estão a sentire? Dava-lhes cá uma punhada prós cornos, isso é la precura que se faça a alguém que acabô de perdere tudo?..."

... ah Maneli, dá lá um abraço por mim ao Ti Manel Cara Dura, porque eu estou plenamente de acordo com ele!!

... como tinha saudades de te ler! Sabes lá a falta que estes teus textos me faziam...alegrou-se o meu dia, acredita!

Um abraço carinhoso e bom domingo ;)

05 março, 2006 11:57  
Blogger Menina_marota said...

... a minha "gémea" poesia adiantou-se a mim...
... ficou tão entusiasmada com o texto, que nem esperou que eu escrevesse e desatou ´paea aí a dizer logo o que pensava...

Um abraço risonho ;)

05 março, 2006 11:59  
Blogger António Lisboa Gonçalves said...

Caro Manel, nada como os ares do "nosso" Alentejo para recarregar baterias para enfrentar a vida no betão, e conviver com pessoas genuínas só nos faz ter pena de não podermos, de vez, refugiarmo-nos nas nossas raízes!
Um abraço!

05 março, 2006 17:58  
Blogger paper life said...

Ah, os dias de pão fresco e azuvias, os dias de matança, o cheiro a lenha, os chouriços no fumeiro e, depois da chuva , aquele cheiro a terra vermelha e quente...

Saudades, Manel. tantas!

Bjs. :)

06 março, 2006 20:53  
Blogger adesenhar said...

hummm
esta tua passagem podia muito bem acontecer ´da mesma forma em qualquer região.
um balcão, uns cheiros agradáveis e apetitosos e a água a crescer na boca não é Manel!
E depois de um dia bem passado, levamos conosco um pouco da sabedoria popular, como essa do Ti Manel Cara Dura: - Sabes que mais Maneli, e atão aqueles jornalistas da tlevisão quando precuram às pessoas que perderam as casas, o gado, enfim tudo, nos incêndios, o que estão a sentire? Dava-lhes cá uma punhada prós cornos, isso é la precura que se faça a alguém que acabô de perdere tudo?

dá um abraço ao Ti Manel
:)
Mama Sumae et Audaces Fortuna Juvat.

abraço

07 março, 2006 01:03  
Blogger TMara said...

li-te e sorri da boca á alma. E salivei tmb. Respirei fundo mas o ar não vinha igual ....
Um destes dias.
bjs e :)e um sereno dia

07 março, 2006 12:21  
Blogger Alentejano said...

Então compadre tal vai isso.....?

07 março, 2006 17:22  
Blogger Lumife said...

Fiquei satisfeito pela visita. Quanto a inscrever é fácil. Clique no anúncio do Encontro e vai dar ao site criado de propósito. Aqui tem um lugar que diz incrição. É só preencher. Depois vamos confraternizar no dia 22 de Abril em Alvito.

Um abraço.

Já agora peço-lhe emprestado por uns dias esse cante alentejano.

07 março, 2006 18:50  
Blogger Adryka said...

Olá amigo, és amigo da Titas és meu amigo, gostei muito do teu texto, então acompanhado desta musica mágnifica, adorei. beijnhos

07 março, 2006 20:41  
Blogger Menina_marota said...

É uma delícia este texto, especialmente lido com este Canto Alentejano...
A transcrição está de tal maneira realista, que sabes, vi-me lá... entre com o Ti Gervásio a provar o vinho e o paio da Ti Zulmira...

A pureza deste Povo...é algo que nunca esquecerei...

Mais uma vez, vim ler-te... esta forma de te dares a conhecer de uma maneira única...

Um abraço de boa noite ;)

07 março, 2006 21:20  
Blogger O Transmontano said...

Maneli!
Será que no tê Alentejo, teria cabimento um Transmontano que procura na vida apenas o Sol da Primavera?
Só queria poder guardar na alma a felicidade que provocas naqueles que também adoram a pureza desta gente maravilhosamente bela, que se enquadra perfeitamente numa bela natureza.
Depois, bem depois, o sotaque acintosamente crítico!!!!
Obrigado Maneli. Na leitura dos teus textos, esqueço por momentos as tristezas, as agruras e as vicissitudes da minha vida....
Um abraço companheiro e AMIGO.

07 março, 2006 22:14  
Blogger Maria Costa said...

Esta crónica transmite além do mais o carinho e orgulho em e por ser alentejano. Sempre ao estilo do Manuel do Montado.

Beijinhos.

08 março, 2006 13:10  
Blogger vero said...

Passei p deixar um beijinho***

08 março, 2006 14:30  
Blogger Isabel-F. said...

...maravilha o teu texto...obrigada pela partilha das tuas memórias...e por me fazeres viajar a essas terras lindas...e reviver esses costumes...que se vão perdendo....

fica um beijo

08 março, 2006 18:48  
Blogger Doutor X / Elisabete said...

Adoro escrever sobre recordações de infância...guardamos lugares, cheiros, situações...é muito bom, dá uma enorme sensação de bem estar...Bete

09 março, 2006 13:57  
Blogger boss said...

Manel, Viva o alentejo, belos "postalis"

09 março, 2006 20:57  
Blogger paper life said...

bjinho. boa noite.

10 março, 2006 00:01  
Blogger Henrique Santos said...

É com muita água na boca, que acabei de lêr esta peça, que eu, como das outras vezes, julgo ser um livro, e que depois ... cresce a água como nascente...
Bem, já sei, a seguir vem o livro...
Um abraço Maneli, bonito quadro do nosso interior e... bons petiscos anunciaste, caramba!
Ricky

10 março, 2006 10:26  
Blogger menina graça said...

Saboroso texto o teu que me levou de volta a esses ares do Alentejo de que já tenho tantas saudades!
Obrigada pela visita lá à loja! :)

10 março, 2006 14:46  
Blogger Flávia said...

OI Manel! Poxa vida, gosto muito, mas muuuuuuuuuito mais dessas suas narrativas. São tão lindas.
Beijos

10 março, 2006 23:00  
Blogger TMara said...

um bom f.s. Bj de luz e paz

11 março, 2006 11:08  
Blogger Micas said...

Bom domingo :)
Beijos

12 março, 2006 00:42  
Blogger Isabel-F. said...

...passei a desejar-te um Bom Domingo.

Bjs

12 março, 2006 12:27  
Blogger hala_kazam said...

Já dizia o Torga que é no Alentejo que habitam as ondas douradas
:)
beijos desta alentejana

***

12 março, 2006 19:14  
Blogger Menina_marota said...

Passei para te (re)ler e deixar um abraço de boa semana ;)

13 março, 2006 15:41  
Blogger Doutor X / Elisabete said...

Linda narrativa e a música ao fundo é bem típica mesmo né???!!! Bé

13 março, 2006 18:07  
Blogger Doutor X / Elisabete said...

Permita sempre que as suas palavras sejam suaves e os seus argumentos, fortes. A linguagem da doçura e da leveza é muito importante para reduzir e eliminar as chances de provocar os outros. É certo que os parentes não pode se livrar da raiva no caso seu tio, em apenas um dia ou uma semana; isso leva um pouco mais de tempo. Por isso, é preciso ser paciente com você mesmo, ele é parte da família. Afinal a paz vem da observação da boa conduta e do evitar conflitos com a própria consciência. Lembre-se: uma mente calma não é apenas pacífica; ela é focada, auto-governada e divina. Mas este relato tb me lembra um pouco meus avós, ainda vivos, ficavam zangados comigo muitas vezes mas eram bons tempos...

abraços

dr x

14 março, 2006 17:24  
Blogger TMara said...

fiquei-me por aqui ouvindo os cantares....e relendo.
Bjocas luz e paz

14 março, 2006 18:30  
Blogger Menina_marota said...

Olá Manel... gostaria que passasses pelo meu Blog, porque tens lá um convite que, espero que aceites.

Um abraço carinhoso ;)

15 março, 2006 19:34  
Blogger seirén said...

Vim só dizer-te até breve, Manel

O vida de papel fechou hoje

Beijo.

Tudo de bom.

:)

16 março, 2006 23:41  
Blogger lazuli said...

Manel, tenho aqui ao lado (Lisboa city) um talho que arranja um paio branco de Beja (acho que é de lá..) absolutamente fabuloso.
Cortam fininho, como devem ser cortadas as coisa boas, para melhor se saborear.
À porta lê-se: Alentejo.
São o meu...jet set.
Um beijo e obrigada por tudo

fernanda g.

17 março, 2006 22:06  
Blogger silencebox said...

Adorei sentir a brisa das tuas memórias e respirar a tua terra natal sob as tuas palavras! Não fazia ideia de como os alentenjanos falavam ou pronunciavam, pelo facto de não ouvir. Acho o Alentejo muito bonito e a comida alentejana deliciosa!
O teu texto, apesar de ser grande, está muito bom. Prendeu-me! E agora quero ler mais textos teus!
Um abraço carinhoso e cheio de admiração por seres o que és: orgulhoso da sua terra Natal!

23 março, 2006 19:25  
Blogger Arte em Movimento said...

Apesar da minha terra ter um dialecto diferente, quando li este “conto” foi como se estivesse em casa. A taberna, a rua, os tios e as tias do nosso "Jet Set", o paio, o pão! Que bom que é reviver o passado. Que bom que é ler este blog.

22 maio, 2006 15:27  

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