quarta-feira, dezembro 28, 2005

Em busca de Deus e do homem


"Cheio de Deus não temo o que virá, pois venha o que vier não será maior do que a minha alma."
Frase no Refeitório do CIOE1
Sempre fui, ou julgo ser, um homem esclarecido e ao mesmo tempo desejoso de uma aprendizagem continua da denominada escola da vida. É fundamental o conhecimento de “rua” para a obtenção de um conhecimento mais palpável, ou pelo menos a sua busca, visto que o conhecimento académico não basta para a determinação das verdades da vida.
É precisamente este que falta à maioria dos políticos ou das classes dirigentes e quando o têm, porque oriundos de famílias mais modestas, muitas vezes é o deslumbre dos títulos académicos ou os cargos obtidos que deita a perder todos os anos vividos com os amigos de infância e ou juventude.
Um dia, estava eu de férias na minha terra natal e, nas ruas da cidade, encontrei um velho companheiro de infância e juventude que me convidou a passar lá por casa. Dois dias depois, saindo de casa com o meu pai para ir ao café, decidi tocar à campainha da vivenda do dito para o convidar também para um café. Atendeu-me a mãe, a qual reconheci de imediato, mas o inverso não sucedeu, talvez por distracção. Perguntei-lhe pelo filho tratando-o pelo nome por que sempre o tratei, até porque faço distinção entre o uso de nomes e títulos em lazer e em trabalho.
A resposta veio pronta e até um pouco seca, talvez a adivinhar que eu fosse fazer algum pedido ao filho, logo eu, que sempre dei aplicação ao ditado que cedo o meu querido pai me ensinou: “Nunca sirvas quem serviu e nunca peças a quem pediu.”
- O Senhor Doutor não está e hoje não vai ao escritório! – Anunciou.
- Muito obrigada minha senhora, informe-o por obséquio, que a um amigo lhe foi impossível aceitar o convite recebido e que também ele hoje não está no escritório. - Retorqui.
- E quem é esse senhor…é doutor advogado como ele? – Perguntou de novo.
- Não minha senhora, é amigo dele de infância e juventude, mas acho que se enganou na porta. Obrigada na mesma. - Rematei já com uma certa náusea.
Cerca de cinco minutos antes de sair de casa dos meus pais havia-o visto chegar à sua, no seu sumptuoso sinal exterior de sucesso com quatro rodas, mas agora não estava…coincidências.

Por isso gosto das minhas peregrinações ao campo e à montanha, sinto-me mais perto da natureza e de Deus. Não há monte ou montanha com um crucifixo no topo a que eu não goste de subir e faço questão de ir pelo meu pé. Não sou alpinista, apesar de já ter estado nos Alpes franceses e nos bávaros, tendo dormido uma noite ao relento nestes últimos, sem imposição, junto a um curso de água e soube-me pela vida.
É desta última que guardo uma memória grata pois teve um significado especial. A Bósnia havia-me tirado a vontade de passeios em montanha, já não as olhava com o romantismo e o espírito de aventura de outrora. Depois daquela noite tudo voltou ao normal.
Um dia, na varanda do bar do edifício de aulas da Escola da Nato em Oberammergau - Alemanha, um amigo dinamarquês, Kysbye, major pára-quedista, perguntou-me se queria subir à montanha no sábado seguinte, respondi-lhe afirmativamente mas disse-lhe que não ia pelo trilho normal, iria atacar o cume por outro lado, partindo na sexta-feira, depois das aulas, dormindo essa noite em altitude. Gracejou qualquer coisa sobre a dificuldade que eu sentiria e depois informou-me que no topo, no corpo da cruz, existia uma caixa metálica que guardava um livro de visitas onde era uso as pessoas assinalarem a sua passagem. Disse-me ainda que esperaria lá ver a minha assinatura.
São estes desafios que me levam a entrar como que num transe, da mesma forma concentrada com que pisava as arenas, buscando uma adrenalina diferente, o fazer parte da natureza, sentir-me nela e dela. Eu, os meus pensamentos e Deus.
Naquela varanda recordei a subida ao monte Krizevac, sobranceiro a Mostar, uma subida ao ponto mais alto dos Tatra, na República Eslovaca, e as patrulhas em Raska Gora, especialmente a última, de que um dia, com mais serenidade, darei luz.
Estava decidido, teria de dormir uma noite na montanha, sem medos, em paz e em comunhão com a natureza. Arrumei a mochila com o essencial para estas coisas e na sexta-feira depois das aulas pus pés ao caminho.
Os que me conhecem, reconhecerão a bandeira pátria em volta do meu pescoço, vai comigo pra todo o lado nestas actividades. Hábito iniciado há muito, nas montanhas a norte e em redor de Sarajevo.
Último “check” antes de iniciar a subida até ao local de pernoita que havia escolhido no mapa, uma pequena depressão que me garantiria abrigo dos ventos. Para além do essencial, uma pequena lista telefónica com os números de emergência, duas baterias de telemóvel, pimenta (para espalhar, quando da pernoita, num perímetro mais ou menos circular de cerca de 30 metros de raio), pois qualquer animal que a fareje, para além de perder o faro fica a saber que o território está delimitado por um “bicho” superior. A faca de mato e um estojo de enfermagem de emergência completaram a carga essencial.

Após iniciar a subida e já quase a anoitecer procurei lugar para dormir junto a um regato com marcas de pequenas patitas de animais de sangue quente, sinal evidente da pureza da água e da ausência de animais maiores. Atei a “maca” (cama de rede) a duas árvores, a cerca de dois metros do chão, e procurei ervas naquela altitude fazendo com elas uma pasta que misturei com terra, urina e água, esfregando em seguida as minhas roupas e todo o material ”não natural” com a mistela. Para além de desodorizante natural, marca território e confunde o odor humano com os odores naturais da ambiência, tem é de ser feito depois de todas as roupas estarem arejadas do suor, secas ou mais ou menos secas, meias incluídas.
De manhã, ao primeiro chilrear das aves, acordei depois de uma noite bem dormida e serena, mas cujo início havia sido de recordação e resignação. Tomei um banho improvisado na água gelada do regato, passando também as roupas objecto da mistela pela água, torcendo-as e colocando-as em seguida penduradas na mochila para secarem durante a marcha. Comi uma barra energética e ataquei o resto da subida pela vertente mais difícil.
Quando cheguei ao Kobel, cujos últimos 30 metros são em escalada através de uns grampos cravados na rocha, encontrei um turista austríaco que me tirou as fotografias comemorativas. No livro de visitas deixei escrito o que de momento me veio à cabeça; um pequeno verso de uma canção alentejana de Portel, uma frase em inglês dum álbum de Vangelis, os meus nicks, país e data:


Dei um ai entre dois montes
Responderam-me as montanhas
Ai, ai que eu já não posso
Sofrer ausências tamanhas

Going on means going far,
going far means returning.

Bambino (Ramon) - Portugal, 7-7-2001

Estava cumprido o ritual de peregrinação e a exorcização de mais um fantasma. Nessa noite comi um bife na pedra, pago pelo meu amigo Kysbye e ofereci-lhe um edelweiss 2 que colhera. Nesta quadra voltei a recordar tudo isto, perguntando-me que importância terá esta narrativa para outros. Terá a que lhe quiserem dar, para mim foi o viver de momentos únicos, meus, de superação, paz e conforto espiritual.

Para vós:
Que os melhores momentos de 2005 sejam os piores de 2006.

________________________________________________

1 - A frase encontra-se na parede do refeitório do aquartelamento de Penude - Lamego, onde está sedeado o Centro de Instrução de Operações Especiais.

2 - O Edelweiss é uma pequena flor típica dos Pirinéus e dos Alpes que só se encontra acima dos mil metros de altitude. É também o símbolo das tropas de montanha alemãs.

24 Comments:

Blogger António Lisboa Gonçalves said...

Mais um excelente relato, através de um texto que apetece ler sem parar, não há dúvida de que está na altura de passar isso para papel!
Quanto aos doutores, engenheiros e outros que tais, quando nada mais os consegue afirmar, serve-lhes para pensarem que são de outra estirpe a fazer lembrar os que se afirmam por um pedaço de pano com amarelos nos ombros mas a quem os outros não seguiriam prontamente e incondicionalmente, enfim eles estão em todo o lado!
Um abraço camarada!

28 dezembro, 2005 12:43  
Blogger paper life said...

Olá.

Sobre a primeira parte do texto, recordo uma expressão de um pescador de Setúbal " ah, vocemecê é doutor? atão meta-me isso dentro de uma carcaça a ver se se come!"

A segunda parte, mesmo sem semelhança entre as tuas experiências de vida e as minhas, como entendo esse limpar da alma.

Repete-o sempre que puderes.

Beijo.

Bom 2006.

28 dezembro, 2005 16:23  
Blogger Isabel-F. said...

Alô Manel...

Adorei acompanhar-te nesta aventura...e aprendi duas coisas...desconhecia que a pimenta tinha o efeito que dizes...e tb desconhecia a tal mistela que fizeste....

...e...gostei muito...de ter ficado a conhecer o teu rosto...(é o teu não???...pelo menos vejo à volta do pescoço a nossa Bandeira...)

Bjs

28 dezembro, 2005 21:58  
Blogger Menina_marota said...

Porque será que as memórias dos outros, atraiem as nossas memórias?
Fiquei-me aqui a imaginar como será sobreviver nesse mundo, que nos parece tão longe, mas está aqui na frente do meu olhar...

Com este relato, fizeste-me recordar tempos passados, pessoas e memórias de um mundo que perdurará em mim, para sempre.

E, são dessas memórias que escolhi um Poema de Manuel Machado Ruiz, que aqui te deixo, com um beijo de boa noite:
"
Esta es mi cara y ésta es mi alma: leed.
Unos ojos de hastío y una boca de sed...
Lo demás, nada... Vida... Cosas... Lo que se sabe...
Calaveradas, amoríos... Nada grave,
Un poco de locura, un algo de poesía,
una gota del vino de la melancolía...
¿Vicios? Todos. Ninguno... Jugador, no lo he sido;
ni gozo lo ganado, ni siento lo perdido.
Bebo, por no negar mi tierra de Sevilla,
media docena de cañas de manzanilla.
Las mujeres... -sin ser un tenorio, ¡eso no!-,
tengo una que me quiere y otra a quien quiero yo.

Me acuso de no amar sino muy vagamente
una porción de cosas que encantan a la gente...
La agilidad, el tino, la gracia, la destreza,
más que la voluntad, la fuerza, la grandeza...
Mi elegancia es buscada, rebuscada. Prefiero,
a olor helénico y puro, lo "chic" y lo torero.
Un destello de sol y una risa oportuna
amo más que las languideces de la luna
Medio gitano y medio parisién -dice el vulgo-,
Con Montmartre y con la Macarena comulgo...
Y antes que un tal poeta, mi deseo primero
hubiera sido ser un buen banderillero.
Es tarde... Voy de prisa por la vida. Y mi risa
es alegre, aunque no niego que llevo prisa."

29 dezembro, 2005 00:58  
Blogger vero said...

Manuel, venho agradecer as suas palavras e pedir-lhe desculpa pela má interpretação da minha parte!

Beijinhos e volte sempre!!! ***

29 dezembro, 2005 14:26  
Blogger O Transmontano said...

"Se o hábito faz o monge/ E o mundo quer-se iludido/ Que dirá, quem vê de longe/ Um gatuno bem vestido?". A pequenez das pessoas vê-se na postura rudimentar que têm na vida. Meu amigo, já te disse milhentas vezes: - Tu, és um BRILHANTE ADVOGADO, esse teu pseudo-amigo, é um licenciadozeco em direito e, se calhar, por uma Faculdade Privada!?!
Quanto à escalada, não me espanta, quem escalou a Montanha da Vida com o denodo e sacrifícios como tu o fizeste, que são essas altitudes para um Guerreiro da Vida?
Belo, belíssimo o retrato do trajecto.
Um abraço.

29 dezembro, 2005 20:16  
Blogger Afrodite said...

Que bem me sinto aqui!
Vivi o relato do encontro com o amigo de juventude (quantos casos eu conheço: "ter" tanto e "ser" tão pouco.. coitados)

Depois viajei pelos Alpes, mais uma vez na procura (jamais sucedida com êxito)de uma Edelweiss.

Um bom e feliz-todos-os-dias-meses-e-anos para ti!

§(~_~)§ beijo da Afrodite
(deixei-te 'lá' um aviso, um conselho e um miminho)

30 dezembro, 2005 04:29  
Blogger Afrodite said...

Nota de rodapé - li o comentário do
António Gonçalves. Tu não me digas que não tens os teus textos protegidos, registados na SPA!!!!!!

30 dezembro, 2005 04:31  
Blogger Cristina said...

Este ano, a minha passagem do ano é passada em Lisboa, só por isso já estou feliz e sei que 2006 vai ser um ano maravilhoso.
Venho desejar-te uma linda entrada em 2006 e que todos os teus desejos se concretizem.
Um beijinhuuu com muito carinho desta vez deste lado do oceano.
:)

30 dezembro, 2005 14:58  
Blogger Menina_marota said...

Vinha ler-te e fui surpreendida pela suprema voz de Andrea Bocelli a cantar a Avé Maria, que adoro ouvir...boa escolha!

Grata pela partilha que também tu fazes, de uma forma excelente!

Um abraço carinhoso e Feliz entrada em 2006 ;)

30 dezembro, 2005 15:41  
Blogger Poesia Portuguesa said...

FELIZ ANO NOVO

um abraço e uma serena e feliz entrada em 2006 ;)

(adoro a música)

30 dezembro, 2005 15:43  
Blogger lena said...

mal entrei ouvi Andrea Bocelli a cantar a Avé Maria, adorei
depois sentei-me para te ler
como é verdade o que dizes o Dr. , Isso ainda é mt importante neste país e há tantos que nada sabem da vida, a não ser o que mal aprenderam nos “bancos” das universidades
depois fiz a escalada contigo, claro sentadita no teu blog,
fiz algumas mas quando andei nos escuteiros, nada iguais à que tu tão bem descreveste, já dormi agarrada a uma árvore, tal era o sono, nas sempre em companhia de mais escuteiros, mas nada que me tenha impressionado tanto como a tua subida, pensaste em tudo , até no afastamento do cheiro do corpo humano, não fosse alguma “fera” apanhar-te de surpresa
engraçado que me recordo do meu pai contar cenas dessas passadas no mato, onde dormia muitas vezes, mas em África, fizeste lembrar-me com saudades alguns momentos, contados por ele

é sempre um prazer ler-te, é ganhar sempre algo que me enriquece

fica o meu desejo de um próspero Ano Novo e como tu tão bem dizes para ti também: que os melhores momentos de 2005 sejam os piores de 2006

beijinhos meus e um abraço

lena

30 dezembro, 2005 22:47  
Blogger Maria do Céu Costa said...

Não podia terminar este ano pela blogosfera sem ler este cativante texto. E em jeito de comentário ao texto vou deixar-te este meu pequeno poema:
"Amou Deus tanto a terra
Que sangrou de luz"

Feliz 2006!
Beijinhos,
Maria do Céu

http://maisquepalavras.blogs.sapo.pt

30 dezembro, 2005 23:48  
Blogger Afrodite said...

Os meus desejos (e conselhos) para 2006 estão na minha casota.
Vais buscá-los? São para ti.

§(~_~)§ beijo da Afrodite

31 dezembro, 2005 07:10  
Blogger paper life said...

Votos sinceros de um Novo Ano replecto de Paz interior e sucesso pessoal, Tudo de Bom para ti.

Um abraço fraterno

M

31 dezembro, 2005 13:36  
Blogger zicacabral said...

Manel passo aqui a correr sem sequer ter tempo para ler os teus magnificos textos, para te desejar um Ano Novo cheio de todas as coias boas que se podem desejar a um Amigo. Tentei mandar um email mas vêm sempre para tras......
Adoro o Andrea Bocelli e tenho quase todos os seus discos........foi bom ouvi-lo aqui ..........
Beijos enormes da muito amiga
Zica

31 dezembro, 2005 22:20  
Blogger lazuli said...

A primeira parte do texto é a fuga para a segunda parte. E que bem me soube fugir desse ilustre colega e respirar os ares puros da montanha.
Já sentia um nó na garganta, de enjoo..

UM beijo, manel
Fernanda

02 janeiro, 2006 03:39  
Blogger Isabel-F. said...

Querido AMigo,

Neste início de ano vim desejar-te uma boa semana e o melhor para 2006.

Bjs.

02 janeiro, 2006 13:26  
Blogger TMara said...

perguntas-te k importância tem para nós o registo destas memórias...Fui contigo, vi e aprendi coisas k desconhecia, vi a ~´ansia da humana lama em superar-se, k +e das coisas + belas de ver. Obrigada.
Sobre a 1ª parte: já e aconteceu semelhante. Só valorizoo título académico entre pares k o valorizam (à portuguesa) como sinal (k pode ser vazio no entanto) de comptª numa determinada área dos saberes. Os n/ políticos incham, ( n/ serão todos. tmb os n/ conheço todos) como perús recheados, alheiam-se do mundo do cidadão comum, vivem num universo paralelo, só paralelo, numa tribo fechada e assim estupidificam naturalmente para o real da vida e do país. Obrigada pelos teus smp ricos textos. Já li o da Orgia Política maas tenho k lá voltar com mais tempo e não me ficar pela leitura corrida k fiz. Se vocês k por aqui passam virem esta refª vão lá e encantem-se com um texto político riquíssimo e fundamentado.
Bjs de luz e paz ;)

02 janeiro, 2006 20:06  
Blogger Micas said...

A minha ausência nos últimos dias deve-se apenas ao facto de onde estava não ter o tempo que gosto de dedicar aos teus textos. Gosto de os sentir letra a letra. A frase que o teu pai te ensinou é muito idêntica a uma que o meu pai também me ensinou, realmente é triste mas é uma realidade que encontramos imensas vezes na vida. Esses "amigos" de infãncia ainda não aprenderam que o maior tesouro que temos são os Amigos, independentemente do cargo ou título, aqueles que estão sempre presentes, no bom mas principalmente nos maus momentos. Infelizes deles...
As tuas memórias, penso que já te disse uma vez, deveriam ser publicadas, eu aprendo muito sempre que te leio. Só te posso agradecer esta tua partilha e, por favor, nunca deixes de ser como és. São pessoas como tu que fazem o mundo mais bonito.
Aproveito para te desejar um excelente ano, pleno de sáude de amor e de muita paz. Beijos

02 janeiro, 2006 21:18  
Blogger Menina_marota said...

Estive a acabar um trabalho a ouvir este som maravilhoso!
Reli mais uma vez o teu texto e, deixei-me aqui ficar quieta...enquanto o meu pensamento vagueava pelo meio das tuas palavras, recordei este Poema...

"Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.

Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.

Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu escrevo."

(Poema de Ricardo Reis)

Porque é sempre um prazer acrescido ler-te, volto sempre aqui na ânsia das tuas memórias...

Um feliz e sereno 2006 e um beijo meu ;)

02 janeiro, 2006 22:45  
Blogger maria said...

Bela citação a iniciar este teu post, em que nos dás mais um também belíssimo retrato de momentos ímpares por ti vividos e que só uma sensibilidade muito especial capta da forma que tu, com a tua, o fazes...
Beijinho e um Novo Ano com tudo de bom para ti:)

02 janeiro, 2006 23:26  
Blogger Henrique Santos said...

Maneli, que maravilha. Cheguei do ano passado, vim aqui logo a correr e fiquei saciado. Belo texto, mas mais importante o que ele nos transporta para "dentro". Venha esse livro, porque há muita gente, mas mesmo muita, que "necessita" beber desta água!!!
Revelas valôres que são importantes para a nossa sociedade e que consegues transmitir duma forma peremptória e clara.
Maneli, um dia vamos beber um copo e falar... falar... OK?
Um abraço grande de boas entradas Ricky

03 janeiro, 2006 12:34  
Blogger paper life said...

Muito obrigada pelas tuas palavras.

Recebeste o mail do Almada?

A Maria não foi nem nunca será poeta, não vale a pena guardá-la.

Responde por favor.
Beijo.
:)

10 janeiro, 2006 22:12  

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