Sarajevo - A morte em cada esquina.

Homo homini lupo
(O homem é o lobo do homem)
Em cima:Sinais nos cruzamentos- Atenção snipers!
Em baixo: Parlamento da BH sob ataque sérvio.
Foto do interior das torres gémeas de Sarajevo (Torres Unis).
II - O Dr. Rambo
Um outro dia de primavera nascia agora radioso mas ainda ofuscado por uma névoa de ar frio que pairava sobre a cidade. A noite que o antecedeu fora relativa

- Jesus Christ, not again, Carlo has the snoozer on! 1 – Disse Godzilla, referindo-se ao ressonar do cabo dos Carabinieri italianos.
Dei um pontapé na bota de Carlo e este acordou, como sempre, a sorrir e com a pergunta sacramental: Is Roma on fire? 2 - Com aquela pronúncia típica dos italianos era de ir às lágrimas.
- You’re snoring.3 – Disse-lhe, rindo-me.
Virou-se para o outro lado e soltou ruído pelos fundos, acompanhado de uma gargalhada.
- Keep snoring, kepp snoring! 4 - Disse Evans, oferecendo-me um snack crocante.
Aguardávamos que a claridade se instalasse completamente. Estávamos ali, no sétimo andar de uma das torres gémeas de Sarajevo, desde as duas da manhã, aguardando o sinal para o início da caçada. Havíamo-nos deslocado para lá a coberto da noite, guiados por Stefan M..., um oficial do HVO (exército croata da Federação Bósnio-Croata), através das passagens abertas entre os edifícios.

Dias antes, perto da Câmara Municipal, na parte velha de Sarajevo, havia ocorrido o massacre de cinco homens de etnia sérvia. Tinham-se infiltrado através da rede de esgotos para uma qualquer missão e os seus corpos haviam sido encontrados no dia das mentiras por gente de uma Organização Humanitária. Haviam sido degolados à velha maneira otomana e a retaliação do lado sérvio veio sob a forma de disparos a tudo o que mexesse. Estava aberta a caça a todas as espécies.
Carlo havia agarrado num manequim feminino, simulando uma dança e depois aquilo que se imagina. Só ele nos poderia fazer rir naquela altura.
Primeiro vestia-se um manequim com roupas abandonadas. Havia até quem lhe pusesse um cigarro a fumegar na boca. Em seguida sentava-se o manequim numa cadeira e atavam-se duas cordas, uma a cada par de pés da cadeira. Um trio de atiradores dos nossos emboscava-se nos telhados ou nos pontos mais altos dos edifícios em redor. Quando o dispositivo estivesse pronto, dois de nós, um de cada lado da divisão da casa com mais janelas, deitados ou sentados junto ao solo ou a um canto, puxava a cadeira para si fazendo-a passar junto às janelas. Assim que o sniper disparasse revelava a sua posição e o resto é mera acção táctica. O processo repetia-se então noutro local e no caso dos nossos atiradores não terem resolvido a questão logo à primeira, isto é, antes do atirador se aperceber que fora iludido.
Era assim desde a morte do sargento legionário Jean-Marc La Brasse, atingido por um sniper quando socorria um idoso atingido numa perna, na Avenida Obala Kulina Bana, paralela ao rio Miljacka (Miliiaska).

Aprender a sobreviver. Retrovisor anti-sniper
Os snipers costumavam emboscar-se nas encostas sobranceiras à margem sul do rio, ou mesmo nos edifícios mais a sudoeste, no bairro de Ali Pasino Polie. No dia anterior haviam excedido todos os limites. Estavam a escassos duzentos metros, num dos quatro edifícios gémeos, na margem sul do rio e para oeste de um dos quartéis da ONU, instalado no complexo desportivo de Skenderija.
Aquele dia marcou-me, pois era dia do meu aniversário, embora o sargento espanhol Luiz Hilgueras se tivesse oferecido para ir no meu lugar, agradeci-lhe dizendo-lhe que “con mis muchachos voy yo!”5. Esta missão de busca a um dos homens mais procurados da guerra era de comparência obrigatória, não queria faltar, apesar de tudo, incluindo ser este o meu último dia. Ainda assim o ânimo era elevado, antecipava-se já a “petiscada” da noite.
- Ramon, the “Angel” brought the shellfish? 6 – Perguntou Evans, referindo-se ao helicóptero que nos trazia abastecimentos extra de Split, na Croácia.
Acenei afirmativamente, enquanto observava pelo buraco onde havia estado uma janela. Via agora claramente os vultos das pessoas na penumbra, de regresso a casa. Em Sarajevo, naquela época, a vida era feita durante a noite. Ardiam-me os olhos, onde estaria Dijana àquela hora...que olhos meu Deus..e os lábios, carnudos... Tau, Tau!... Dois estampidos secos, típicos das armas usadas por snipers, ecoaram na manhã.
Tsssssssssttttt...O rádio dava agora sinal de vida. Ia começar a “dança da cadeira”.
- Alpha to all groups; Fox on Golf Two Zero, Golf 2-0, do you copy? Over! 7 – Informou “Gaza”.
- Alpha, this is Alpha three; loud and clear; Fox on Golf 2-0, over! 8– Respondi.
Cada um sabia o que havia a fazer e assumiu a sua posição. Este método de referenciar objectivos deu bastantes resultados por ser pouco convencional. Coloca-se uma mica quadriculada transparente sobre o mapa da cidade, com dois eixos, um de números e outro de letras. Depois, assim que o objectivo é referenciado, é só jogar à batalha naval. As coisas simples são as mais eficazes. Estava grato à matemática, afinal os eixos de abcissas e ordenadas (x e y), sempre eram úteis para alguma coisa. Tinha-nos chegado a informação de que o “Dr. Rambo”, nome pelo qual era conhecido um dos snipers de Sarajevo, estava encurralado num quarteirão próximo. Segundo se dizia era dentista e havia sido atirador da equipa olímpica da Jugoslávia. A partir de determinada altura, a seguir ao tiro selectivo, era comum ver um ou dois vultos correr para a vítima, debruçarem-se sobre ela e depois desaparecerem. Havia uma certa admiração pela coragem evidenciada debaixo de fogo no auxílio às vitimas, mas estranhamente, muito mesmo, ninguém disparava sobre aqueles indivíduos.
Dizem que era a dele...
Naquele amanhecer, o seu primeiro “tiro ao boneco” denunciara a sua posição. Pouco depois encomendava a alma ao criador, assim como um dos seus adjuntos. Na sua posse foi encontrado, para além do espólio militar, um alicate de dentista e uma bolsa de veludo das que envolvem as garrafas de Chivas Regal Royal Salute. Estava quase cheia de dentes de ouro. No leste da Europa é comum a substituição de dentes por próteses daquele metal. Estava explicado o mistério da correria para os cadáveres.
Aquela manhã tinha menos poeira no ar do que o habitual, nem sequer cheirava a morte. Limpei o Vicks Vaporub que havia posto nas narinas por causa dos cheiros, queria sentir o aroma daquela manhã. Afinal fazia anos. Fomos a pé em patrulha até ao ponto de recolha, junto à Mesquita de Ali Paxá e dali de VAB até Skenderija. Tudo porque atravessar a pé a ponte com o mesmo nome era acreditar demais na sorte ou em Deus, conforme a crença de cada um.
Vi Dijana de novo, estava com a irmã. Não a via desde a morte do pai, um mês e meio antes. Esperavam por Rob, assim julgava. Dijana trazia um cesto de vime debaixo do braço, sorriu para mim, devolvi-lhe o sorriso e acenei.
Chamou-me, deu-me o cesto com iguarias regionais e desejou-me um feliz aniversário, estendendo-me a mão para um cumprimento. Senti a pele macia e o seu cheiro, o sorriso continuava lindo. Agradeci a oferta com que me presenteavam ambas, despediram-se e foram às suas vidas. Nessa tarde comemorei o aniversário com o meu grupo e já era noite alta quando eu e Rob, seguindo indicações deste, nos escapulimos para o bairro onde havíamos estado de manhã. Chovia agora, como só nos balcãs chove, afinal em Abril águas mil...
Nessa noite, o meu desejo de quase três meses realizou-se por fim, tomei um banho quente de banheira e dormi numa cama fofa com lençóis. Tinha agora trinta e cinco anos e Sarajevo entrava no segundo ano de cerco.

1- Jesus Cristo, outra vez não, o Carlo ligou o alarme! (ressonar).
2- Está Roma a arder?
6- Ramon, o Anjo (helicóptero) trouxe o marisco?
7- Alfa a todos os grupos, a raposa está em Golf, dois zero, Golf-2-0, entendido? Terminado!
8- Alfa, aqui Alfa três; alto e claro; Raposa em Golf, dois zero, terminado!
28 Comments:
Excelentes crónicas!
Abraço de um Camarada ( e Alentejano também)
É bom conhecer o que se dá numa guerra. Assim eu reforço meu sentimento pacifista.
Ler, interiorizar, apreender e aprender.
Qualquer comentário, deslustraria a tua arte literária de narração.
Um grande abraço e bem-hajas.
Ler este texto é como entrar num filme e fazer parte dele.
Soberba descrição.
Um beijo de boa noite e boa semana ;)
Crónicas de guerra (e de vida)para ler e sentir e quem sabe, editar. Era bom que muitos soubessem o que realmente está para lá do que se vê na televisão...Grata pela partilha.
Beijos
Se tudo isto não fosse tão trágico podia ser parte do guião de um filme, por tão perfeita e concisa narrativa.
Mas não é filme, é guerra e a guerra mata a sério, novos, velhos. A guerra não tem olhos de escolher.
Enquanto houver dois humanos na terra, não há fim para este filme terrível de matar e morrer.
Bj.
Manuel, passei só para dizer que acabou o "mistério" da casa grande agora mesmo.
Nada com pedir.
;)
Bjs
Oi Manel...
Adorei.
Que tal começares a pensar na publicação de um livro???
Bjs
as tuas crónicas são excelentes, consegues fazer-me acompanhar cada momento descrito
talvez por ter nascido em África me faz caminhar nas tuas palavras
um livro, acho que era bom pensares nisso Manel
e vou aparecendo para me sentar um pouco e ler-te
obrigada pelas tuas palavras na minha cabana
beijinhos meus
lena
Vi o teu comentário sobre Moçambique em outro blog...também lá vivi muitos anos! Cheguei de lá há pouco tempo, e tu?
Manel passei só para deixar um beijão enorme, dizer que a máquina está optima (dei-me a mim propria um presente d'anos com uma fuji S9500 o ultimo grito da Fuji - fantastica) mas tenho tido imenso trabalho que não me deixa tempo nenhum para vir aqui ler as tuas cronicas ou sequer por posts no meu blog. Vou a Portugal daqui a muito pouco tempo e tenho milhares de coisas para fazer.
Mas não me esqueço dos amigos
um beijo grande da Zica
Um blog excepcional, sobretudo pelo saber da humanidade, encontrado mesmo em contextos tão irracionalmente cruéis... É assim a natureza humana - tão capaz das maiores atrocidades como da expressão da mais desarmante das ternuras...
Mais uma vez parabéns pelo blog e pela sensibilidade :)
vim deixar um olá meu e dizer-te que gosto também de Moçambique
beijinhos
lena
Olá Manel,
Li com muita expectativa e emoção o aniquilamento do dentista, e a razão da existência daquele alicate de dentista... Bela descrição, sobretudo porque consegues realçar a camaradagem, a amizade a lealdade, que tanta falta fazem aos nossos políticos, por ex. Quem disse que os militares são desumanos?
Um abração Manel
Ricky
Obrigada, Manuel. Valeu.
Bjs.
(esta semana está a ser longa mesmo)
passei, para te desejar um bom fim de semana.
bjs
horrores da humanidade. fazes bem em limpar a alma através da escrita. fechar as feridas e deixar k o pensamento e o amor as lave.bjocas de luz e paz
Passei... deixo um beijo ;)
Querido amigo, venho aqui para te agradecer a presença no meu blog, sempre com comentários lindos. Te digo que é muito querido e sempre bem vindo.
Beijos
Beijinho e BOM FDS :)
Gosto de ler o que escreves.Entra na alma. Passei para deixar um abraço e desejar-te um bom fim de semana.
Meu vizinho Manel,
Passei para desejar um bom fim de semana e um abraço. Tenho café à sua espera.
Inté!
Olá Manel,
Ao ler o teu texto senti tudo o que descrevias, muito bem escrito
:)
Uma continuação de um óptimo fim de semana para ti
:)
Beijinhu
Aquela ausência inerte
Que precisava coser o dia
Era muito mais do que a Fada.
Era no fundo a defesa
Que neutralizava a besta.
Venho só desejar-te continuação de um excelente fim de semana :)
DESEJANDO A VC UMA ÓTIMA SEMANA.
BEIJOKS
Passei para desejar Boa Semana e agradecer a simpatia das palavras deixadas no uivo.
Eu vou estando atenta tanto quanto puder aos blogs de que gosto, como é o caso de O Montado.
Bjinhos
M
"Madalena Pestana
Location:Lisboa, Portugal
a cada Maria Madalena terá nascido um Jesus Cristo para ela ver morrer? "
citação no perfil do meu segundo blo
Só a postei aqui pelo que hoje escreveste no uivo.
Mais uma vez obrigada. És um doce de Gente! (nã foras tu alentejano.. :) )
Como vês nao deserto nunca.
:) Bjs
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