segunda-feira, novembro 28, 2005

Paz - O sonho adiado da humanidade.

A todos os que amam a PAZ.

(…) Pelo menino que fui
e o sossego que desejo
para o velho que serei,
juro nunca me render. (…)
III - Até sempre Sarajevo.
Alguns dos que haviam chegado comigo iriam regressar a casa mais cedo, no final de Abril deste ano da (des) graça de 1994. Para os que como eu ficavam o próximo destino era Mostar, uma cidade a sudoeste de Sarajevo, para onde partiríamos após a integração dos reforços e das substituições chegadas há pouco. Ainda faltavam quase três meses de missão, mais precisamente setenta e dois dias.
Um solavanco na estrada retira-me do cantinho para onde me isolei em pensamentos, apesar de atento e com a arma pronta e em posição. Aprendemos a estar alerta e ausentes ao mesmo tempo, acreditem que o ser humano é capaz de muita coisa quando o alarme da sobrevivência está ligado.
Regressava de mais uma daquelas patrulhas de rotina pela cidade. Esta última semana impunha uma atenção redobrada pois é sempre quando se facilita que os azares acontecem. “Apertava” pois com os novatos que levaria para Mostar. Estes rapagões nórdicos ainda não aceitavam bem as ordens vindas de alguém com pele e cabelo escuro. Não havia a própria igreja católica retratado Jesus com cabelos loiros e olhos azuis? Como se este estereotipo fosse comum na Alta Galileia há 2038 anos. Enfim, assuntos que o tempo resolveria.
Levava diariamente os “tenrinhos” em patrulha ensinando-lhes tudo o que havia aprendido e ao fim de uns dias já me olhavam como um irmão mais velho e não havia gesto ou cautela minha que não imitassem. Estavam a aprender depressa e aquele olhar altivo foi dando lugar a um outro mais próximo da humildade e do reconhecimento. É normal, afinal com o capacete e os óculos tácticos postos os snipers não distinguem a cor dos cabelos ou dos olhos.


(…) Pela verdade que afirmo,
dos que a verdade demandam
até à contradição,
juro nunca me render. (…)

Chegou o dia da partida e fui despedir-me dos “velhos”. Ofereci-me para comandar a escolta da coluna até ao aeroporto. Do grupo inicial só ficavam eu, “Godzilla”, Evans e “Razor”. Quando parámos na placa de estacionamento de aeronaves, apeei, empunhei a arma e acompanhei-os até ao avião. Queria garantir que nada lhes aconteceria a três horas de casa. Não se explica, sente-se.
- Ramon, protect Leijla. Be sure that she will be in the plane next week, ok? 1 - Disse Rob aflito, uma vez que embarcava dez dias antes da sua namorada. Havia conseguido a suspensão da sua missão para casar. Ergui o polegar em assentimento e disse-lhe um palavrão que me havia ensinado na sua língua materna.
- You mad Portuguese, you’re…! 2 – Disse Rob com aquele sorriso de miúdo na cara sardenta.
Abraçámo-nos, não havia tempo para mais. Dirigiu-se para o avião militar que o levaria de volta a casa, a meio do caminho virou-se, cerrou o punho direito, elevou-o no ar e bateu com ele no peito, junto ao coração. Era o sinal da irmandade forjada em pouco tempo mas temperada como o aço, em fogo quente.
Pensei como seria fácil dar a vida por Rob, “Godzilla”, “Gaza”, Evans, Carlo e todos os outros, sem olhar para trás, mas não o faria por gente que conhecera a vida inteira. “Gaza” havia dito uma vez, nas raras vezes que falava, que aqui aprenderíamos a imensa lição da camaradagem e da solidariedade. Como tinha razão. Ia despedir-me dele com a continência e segurou-me a mão puxando-me para ele. Abraçou-me e disse, disfarçando a emoção:
- Ramon, how proud I am…! 3 - Perfilou-se perante mim, ele, um major, fez a continência ali, em frente de todos, até dos novatos, abraçou-me de novo e entrou na fila para o avião militar. Voltei a vê-lo dois anos mais tarde e passámos férias em família, no Algarve, nuns apartamentos nos Olhos de água. Morreu em Agosto de 2001, aos 48 anos, de doença misteriosa, numa quinta perto da sua Luton natal. Jeannie, a sua viúva, é hoje uma das activistas na luta pelo esclarecimento das doenças adquiridas por militares britânicos na Guerra do Golfo e nas que se lhe seguiram.

(…) Pelos amigos queridos
e os companheiros de ideias,
que são amigos também,
juro nunca me render. (…)

Fiquei com a responsabilidade de olhar pelas duas irmãs órfãs de mãe desde a adolescência e agora também sem pai. Dijana ficava sozinha em Sarajevo, feliz mas amargurada pela partida da irmã. Uma médica de uma ONG, que obviamente protejo a identidade, havia sido decisiva no processo de “recrutamento” para aquela organização da enfermeira diplomada Leijla Cican, mexendo uns cordelinhos e retirando-a de Sarajevo com destino à Holanda.
Dijana sentia-se feliz pela irmã e apreensiva pelo seu destino. Algum dinheiro, dez volumes de tabaco e seis caixas de rações enlatadas, tudo contribuição do pessoal, conseguiram o visto para Dijana. Foi connosco em coluna militar até Mostar, onde a protegemos até à data da sua partida no final de Maio de 1994, altura em que embarcou num avião da ONU com destino a Frankfurt e com o carimbo de “Medical Personnel” de uma ONG no passaporte.
Os anos passaram sem nunca os procurar, parecia que tudo tinha acontecido noutro planeta, noutra vida, de tão irreal que é. Face à imensa tragédia da guerra, de que vale a saudade e para quê reavivar memórias?

(...) E até pelos inimigos,

que odeiam a iberdade

e por isso não são livres,

juro nunca me render.

Em Outubro de 2003, nove anos volvidos, juntei-me a uma equipa multinacional de liderança holandesa para ir à Federação Russa, em missão de controlo de armamentos. Tinha a morada de solteiro de Rob e através dela, o meu amigo holandês, Paul Werstratten, com quem já havia servido antes, obteve o número de telefone.
Rob é hoje sargento no exército holandês, casou com Leijla dois meses após a chegada desta à Holanda. Têm duas filhas lindas, fruto da mistura nórdica e bósnia. Vivem nos subúrbios de Amesterdão numa daquelas casinhas típicas. Visitei-os e fizeram questão que ficasse para jantar, mas no tipo de missões em que andava inserido a equipa prevalece e o tempo é curto.
Na despedida Leijla disse-me que a irmã não vivia longe e que trabalhava ali bem perto, num lar para idosos. Fora casada com um amigo de Rob e tinha um filho. Disse-me que a irmã lhe havia dito que teria ido comigo para onde eu a levasse, que jamais se esquecera de mim e que frequentemente falava sobre mim. Ainda guardava uma fotografia que havíamos tirado juntos. Despedi-me de Rob à porta e então Leijla disse-me que a irmã estava ao telefone. Tremeram-me as pernas e a boca secou. Maquinalmente reentrei em casa e peguei no telefone, balbuciando qualquer coisa.
- Ramon...How are you, my angel of Sarajevo? 4 – Já falava inglês.
- I´m... Je souis bien, et toi? 5 – Respondi, relembrando que lhe ouvi as primeiras palavras em francês.
- I’m OK. I wish to see you again! I’ve a soft bed and clean sheets! 6
Disse rindo. Era a primeira vez que a ouvia rir assim, sem medo, feliz. Trocámos mais umas palavras e despedi-me sentindo um nó na garganta.
Entrei no carro. Um frio doloroso invadia-me o estômago. Cantarolei baixinho para disfarçar os soluços:

- Veja bem, é o amor agitando meu coração,
Há um lado carente dizendo que sim,
E esta vida da gente gritando que não.

Sempre gostara de Maria Betânia e das suas hipérboles sobre o amor, mas agora a letra afigurava-se trágica e tristemente real...tão real que doía…muito.
No local de pernoita fui encontrar a equipa no bar. Bebi umas cervejas, despedi-me e retirei-me, soltando um palavrão na minha língua natal, os outros olharam para mim, riram. É universal o sentimento com que se cospe a resignação.
Quis o destino que a voltasse a encontrar, mas nessa noite recordei a sua voz e o meu aniversário em Sarajevo. Então, sem poder reprimir mais o que me ia na alma, chorei por “esta vida da gente gritando que não!”
___________________________________________
1 – Ramon, protege a Leila, assegura-te que ela vai no avião na próxima semana, OK?
2 – Tu, Português louco, tu és…
3 – Ramon, como estou orgulhoso…!
4 – Ramon… Como estás, meu anjo de Sarajevo?
5 – Eu…Eu estou bem, e tu?
6 – Estou bem. Desejo ver-te de novo. Tenho uma cama macia e lençóis lavados!

28 Comments:

Blogger António Lisboa Gonçalves said...

Excelente texto (mais um)a retratar uma realidade sem dúvida dura, mas onde se constroem sentimentoas para uma vida inteira!
Um abraço camarada!

28 novembro, 2005 19:14  
Blogger lena said...

que excelente texto em que consegues transmitir a realidade de acontecimentos tão duros e ao mesmo tempo cheio de sentimentos, entrei na tuas palavras que me conduziram a Sarajevo e imaginar os teus últimos dias até ao dia da despedida e o reencontro com Rob uns anos depois
ler-te comove-me e no fim também canto baixinho para prender o soluço

beixinhos meus

lena

29 novembro, 2005 11:13  
Blogger Isabel-F. said...

Como sempre...é um gosto vir aqui e ler-te.

Bjs

29 novembro, 2005 11:31  
Blogger Maria do Céu Costa said...

Um excelente artigo, tão bem enquadrado com poemas que lhe dão um reforçar das ideias a transmitir. Artigo bem escrito. Cumprimentos.

http://maisquepalavras.blogs.sapo.pt

29 novembro, 2005 12:20  
Blogger Henrique Santos said...

Aqui estou eu Manel, no teu Montado, a partilhar os teus escritos incisivos e de paz, uma paz que se constroi combatendo, com armas ou com palavras que mostram sentimentos, princípios, força de presença, de corpo, de equilibrio mental e físico! Vir aqui é uma necessidade de carregar baterias para um combate que se renova, contra a teimosia de uns quantos, que de paz nada percebem... nem querem...
Um abração grande meu companheiro Ricky

29 novembro, 2005 12:28  
Blogger paper life said...

Vou ter de voltar a ler este texto pela sua qualidade e seriedade e o meu escasso tempo do momento.

Vou mesmo.

Boa tarde.

Bjs :)

30 novembro, 2005 13:04  
Blogger Menina_marota said...

Reli novamente este texto. Já o teinha lido ontem, mas fiquei incapaz de dizer fosse o que fosse.
Porque conseguiste "transportar-me" com as tuas palavras, para dentro da cena. Sem me dar conta, cantarolei a canção da Maria Bethania

"...As pedras cortando, e eu vou perguntando: até quando?
São tantas coisinhas miúdas, roendo, comendo
Amassando aos poucos com o nosso ideal
São frases perdidas num mundo de gritos e gestos..."

... e sinto um arrepio na espinha, imaginando

30 novembro, 2005 15:22  
Blogger Menina_marota said...

... e sinto um arrepio na espinha, imaginando tudo aquilo que descreves nestas Crónicas...
(peço desculpa por o comment ter seguido, sem o completar, coisas do meu pc, deve estar nervoso!)

Fico-te grata pelas palavras que deixaste no meu blog e, ainda bem que um dos teus gémeos, gostou de poema... e, que o "arranquei" ao game boy ;)

Gostei, gosto muito de ler-te.

Beijo e por favor, continua...

30 novembro, 2005 15:54  
Blogger Micas said...

Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

30 novembro, 2005 17:20  
Blogger Micas said...

Um texto para lá de excelente. De todos os que tenho lido aqui, este tocou-me particularmente pela forma como expões a tua alma, os sentimentos e as amizades tão fortes nascidas em clima de guerra e que ficam para a vida.
É difícil alguém conseguir não se emocionar ao ler este relato de vida, de amor e, de paz! Grata pela partilha.
Beijinho

30 novembro, 2005 17:22  
Blogger O Transmontano said...

Porra que é demais!!! Está um homem fragilizado e eis que te apresentas tu a mostrar àqueles que sofrem e pensam que há pessoas e momentos muito mais sofridos do que os nossos.
Manel, para mim é um enorme prazer escutar leitura com qualidade.
Mas não me espanta!!! Naqueles momentos em que, frente-a-frente, saboreamos uma refeição, consegue ler-se na alma dos puros os sentimentos que os invadem.
Um dia, tb eu disse a uma distinta senhora que me criticou pela pureza de sentimentos: - Sabe minha senhora, sou militar, mas por debaixo da farda que envergo, existe um ser humano com sentimentos.
Passados alguns minutos, e depois de presenciar o meu comportamento, veio pedir-me desculpa.
Gostava que pudesse ler este texto, para no final da leitura te poder agradecer.
Força meu amigo, não desistas e presenteia-nos sempre com estas delícias.
Espero que tenhas gostado do meu texto sobre os Gitanos.
Bem-hajas e obrigado por seres meu amigo.

30 novembro, 2005 18:39  
Blogger paper life said...

É a segunda leitura.

Fiquei sem jeito para comentar. Não sei mesmo fazê-lo. Por isso e com admiração, uso o que li com a verdade de que sou capaz não sendo eu militar:

(…) Pelos amigos queridos
e os companheiros de ideias,
que são amigos também,
juro nunca me render. (…)

Um beijo, Manel. :)

30 novembro, 2005 21:02  
Blogger Micas said...

É um prazer enviar as fotos :), só necessito de um endereço, do blog não é possivel copiar.
acoisadamicas@hotmail.com
Bom feriado, por cá não o temos :(

01 dezembro, 2005 06:59  
Blogger TMara said...

não posso dizer mtº. a tua sensibilidade é tocante e bela, o resto deixa dor e dói. Bj de luz e paz

01 dezembro, 2005 08:30  
Blogger Nina said...

Fikei presa ao teu texto :)

Beijinho e Bom Feriado :)

01 dezembro, 2005 11:16  
Blogger Isabel-F. said...

Passei a desejar-te um bom feriado e a agradecer teres entendido a minha imagem. Coloquei o teu comentário no corpo do Post.

Bjs

01 dezembro, 2005 12:03  
Blogger adesenhar said...

como compreendo o teu texto.
:|

01 dezembro, 2005 23:27  
Blogger paper life said...

Passei para, como um sobreiro, deixar cair um bom dia como uma bolota que cai.

:) Bjs

02 dezembro, 2005 11:55  
Blogger lena said...

bom domingo para ti

beijinhos


lena

04 dezembro, 2005 11:20  
Blogger paper life said...

Cá estou, francamente esperando novo texto.
Bom domingo.

Bj

04 dezembro, 2005 14:04  
Blogger Flávia said...

Só hoje que deu tempo de ler este texto. Ficou lindo! Muitas emoções entrelaçadas. Deve ser um turbilhão.
Beijoks e bom domingo.

04 dezembro, 2005 15:31  
Blogger Cristina said...

Olá Manel,
Gostei de ler o teu texto.
:)
Obrigada por compartilhares connosco as tuas emoções.
Beijinhu

04 dezembro, 2005 19:34  
Blogger TMara said...

obrigada pela tua presença. Pela leitura atenta, pelos comentários semp estimulantes e enriquecedores do conteúdo proposto e pela generosidade. Boa semana. bjs de luz e paz, plenos de :)

04 dezembro, 2005 23:18  
Blogger Viscondi said...

Forte. Um texto que nos leva à reflexão. Parabéns.

05 dezembro, 2005 15:17  
Blogger lena said...

vim ver as novidades, agradecer as tuas palavras na minha cabana e deixar um beijo meu

lena

05 dezembro, 2005 20:34  
Blogger Menina_marota said...

Olá bom dia...
Passei na expectativa de mais um leitura e voltei a emocionar-me com a força da tuas palavras...

Obrigada pela partilha

Um abraço de bom dia :)

06 dezembro, 2005 07:56  
Blogger paper life said...

(estará de férias no Monte?) :)

07 dezembro, 2005 11:12  
Anonymous Tiago said...

Pela Força e o Sentir que atravessam as tuas palavras, nunca te resignes.

Um grande abraço

09 dezembro, 2007 01:13  

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