domingo, novembro 13, 2005

O Presente do Passado

Só os mortos viram o fim à guerra.
Platão
À memória do médico bósnio Dr. Cican, cobardemente assassinado por um sniper enquanto socorria uma mulher ferida.
Foto de Ron Havic
I - Express 23
Desce mais uma noite sobre Sarajevo, cercada e sangrenta. Tínhamos agora mais apoio desde a chegada de uma força da Legião Estrangeira que veio reforçar o dispositivo da UNPROFOR (United Nations Protection Force).
O mundo já conhecia imagens de soldados ocidentais amarrados por militares sérvios a pontes, antenas e outras estruturas, em claro desafio à comunidade internacional e à NATO. Agora tínhamos, finalmente, capacidade de resposta.
Havia sentido medo ao início, ainda sinto, não aquele medo comum que é, afinal, natural ao ser humano. Era um medo que já havia experimentado nas arenas. É o medo de ter medo, de fugir e não enfrentar o perigo. Nunca tem superação mas controla-se.
Sarajevo, ou o caldeirão, como lhe chamamos, situa-se no vale do rio Miljaska, rodeada por montanhas, numa paisagem que recomendo quando em paz e onde o eco das explosões e dos tiros é mais intenso e ressoa vezes sem conta pelo vale.
Aqui as noites começam pelas quatro da tarde, assim que o sol desaparece por detrás das montanhas, só reaparecendo por volta das sete horas do dia seguinte.
Não há luz, água, gás, medicamentos e comida. Há filas para tudo e a população inocente e mártir sofre. Estranhamente, nem as crianças se ouvem chorar, só passos apressados e aflitos por chegar a salvo ao seu destino, a coberto do escuro.
Esta noite a patrulha é ao longo do principal Boulevard de Sarajevo, a Alameda dos Atiradores (Snipers Alley), até onde esta artéria encontra o cruzamento para Tuzla e Zenitsa, na saída para norte.

Fomos transportados em blindados franceses (VAB’s) e estamos parados há já algum tempo junto à estação dos eléctricos. Anoiteceu há umas horas e tudo parece calmo esta noite. Saímos do veículo e abrigámo-nos atrás do muro danificado da estação dos eléctricos, aguardando a coluna de Jeeps que fará a rendição do pessoal. Finalmente ia dormir a minha primeira noite completa em duas semanas.
Ajeito o auricular rádio e tiro do bolso um chocolate de ração francesa. É que, quando estamos a mastigar coisas crocantes, o ruído de fundo do rádio não se ouve. Faço sinal à minha parelha, um cabo holandês, Rob, para que fique atento ao rádio enquanto eu mastigo. Faço uma pausa na mastigação e...que é isto? – Ouço distintamente música, baixinho, mas é música. De noite, quando a coisa está calma, a única coisa que se ouve é o murmúrio do rio, agora, música?...lá está outra vez!
…“It’s late in the evening, she wonders what clothe to ware...”– É claro agora o som da música de Eric Clapton. Alerto Rob e ele sorri batendo com a mão no bolso lateral das calças do camuflado, indicando-me que é ele que ouve música. É o seu “toca Ka7’s” que se ouve através do auricular, tal é o silêncio.
Um gajo aqui nesta situação e este “tamanco” a ouvir música. Está apaixonado e anestesiado, pronto! – Porque raio se oferecia sempre para as patrulhas nesta zona tão crítica, aliás, a mais crítica?

Toouuup! – Este som cavo assinalava o primeiro tiro de morteiro da noite. Não passava uma sem os cumprimentos da artilharia sérvia, diariamente sempre às 23H00GMT, meia-noite local. Chamávamos-lhe o Express 23. Durava cerca de uma hora e depois era esporádico até ao amanhecer.
Subitamente, assobios, clarões, estrondos, gritos...silêncio. De novo assobios que abafam os gritos, estrondos que causam mais gritos e silenciam outros, clarões que projectam silhuetas humanas e objectos como nos teatros de luzes da minha infância...mais gritos e gemidos, choros e soluços, estrondos, uivos. É o apogeu da insanidade. É a besta humana no seu pior, um festim de selvajaria, tudo porque a raça humana ainda não percebeu que é una na sua espécie, que só há um Deus, os povos é que lhe dão nomes diferentes.
Um uivo maior, tipo comboio a passar num túnel, anuncia a chegada da morte. Estrondo, guinchos de metal retorcido, gritos de feridos e de gente assustada. Um projéctil de morteiro de grande calibre atingiu a carcaça já retorcida e calcinada de um camião e a deslocação de ar virou um dos nossos Jeep’s da coluna da rendição. Tombou de lado e resvalou uma dezena de metros.
Corremos para lá e retirámos os ocupantes do carro em chamas. Nem sei como o fizemos, nem quanto tempo passou, é instintivo, são os nossos camaradas que ali estão e poderia ser eu. Arrastámo-los para a segurança de um alpendre num prédio próximo e alguém nos indicou uma escada que descia para o subsolo. Um médico bósnio, o Dr. Cican, cuidava agora dos nossos camaradas. Duas enfermeiras ajudavam-no, eram suas filhas. O subterrâneo estava cheio de gente ferida e o cheiro...meu Deus, o cheiro!
Rob falou-lhes em servo-croata. Estava explicado o voluntarismo para as patrulhas naquela zona. Uma delas trazia o nome bordado na bata, chamava-se Dijana (Diana), é dona duns olhos negros lindos...

TSSSSSSSSST!...O rádio chamava-me à realidade.
- Take cover, take cover!1 – Gritou “Godzilla”, um canadiano do Quebec, um pouco mais pequeno que um guarda-fato. Agora eram disparos de toda a panóplia de adereços da tragédia balcânica.
- Echo one Romeo; Bravo leader calling. We are under fire from some “boxes” in the southern bank and from Victor four. Reporting two men hounded and one vehicle hit by mortar fire; over! 2 - Gritou “Gaza” ao rádio.
Douglas, o “Bull-Doug”, de 22 anos e natural de Liverpool, conduzia o veículo atingido. Ficou ferido por estilhaços numa das pernas e com um tímpano rebentado. Regressou a casa onde serve numa unidade de treino para operações de paz. O outro ferido, Juan, um oficial espanhol, de 28 anos, ficou sem o pé direito e com 130 gramas de platina na perna do mesmo lado. Visitei-o mais tarde na sua Mérida natal. A prótese não se nota e ainda tem aquele sorriso que lhe enche a cara. O espírito humano não foi amputado e ainda bem. O relatório oficial concluiu por acidente rodoviário. Ainda durava o estado de graça de Radovan Karadijic.
- Echo one Romeo; this is Bravo leader, over! 3 – Chamou outra vez “Gaza”.
A extraordinária semelhança com o futebolista Paul Gascoigne justificava o “nick”. Oriundo do Royal Marine Commando, o líder de equipa, personificava o oficial que se segue para todo o lado. Dava e era o exemplo desde o início da missão. Não era um daqueles oficiais britânicos emproados de que há réplicas rascas noutros exércitos.
Carregámos os feridos para a VAB que os transportou ao aeroporto para evacuação. Para eles tinha acabado um pesadelo, mas começava outro, o dos traumas.
- Echo one Romeo; this is Bravo leader. Two hounded “evac”, over! 4
- Bravo leader; Echo one Romeo, roger and out! 5

Voltei atrás para chamar Rob, que falava com Lejla. Estava ”apanhado”. A irmã, Dijana, fez-me sinal para uma caixa vazia de material médico. Voltei à VAB e agarrei numa bolsa de primeiros socorros. Dei-lha e fiz o mesmo ao meu kit pessoal. Sorriu agradecida. Quebrei todas as regras, mas não resisti ao olhar e ao sorriso que só as mulheres sabem fazer. Chamei outra vez Rob, acenei a Dijana e virei costas para ir ter com os meus. Chamou-me na língua francesa e perguntou-me o nome:
- “Ramon”! – Respondi, dizendo-lhe o meu “nick”.
- Je m’appelle Dijana ! 6 – Respondeu com um sorriso.
Já o sabia, mas gostei de ouvi-lo da sua boca. Aquele olhar...aqueles lábios...aquela voz...uns cabelos negros como azeviche...lindos...
- Tsssst... – Lá estava outra vez a chamada à realidade.
- Bravo leader to Bravo team; regroup, regroup, over! 7
Regressámos ao “conforto” do contentor que nos servia de abrigo. “Lavei-me”, mais uma vez, com “toalhitas”, pois banho com água era uma vez por semana.
Abrimos umas latas de “corned-beef” e bebemos cerveja bósnia e Rakya, uma aguardente local. Batata frita de pacote com um ligeiro, só ligeiro, sabor a ranço, fazia o acompanhamento.
Bebi pelos meus camaradas e pelos inocentes de mais uma obra-prima da estupidez humana. Bebi porque quis, até à exaustão, até o álcool me adormecer de tal modo que não pudesse sonhar. Um banho, lençóis, uma cama fofa...era tudo o que queria. Mais um golo de Rakya...estou...Dijana…
- Hey babe, take a walk on the wild side… – é o “toca-Ka7’s” de Rob. O som saía agora através de umas colunas mini.
Outro golo...fecho os olhos, pesam-me…Dijana...

______________________________________
1 – Abriguem-se! Abriguem-se!
2 – E1R; aqui Bravo líder chama. Estamos debaixo de fogo a partir dos blocos de apartamentos (boxes) na margem sul e a partir do monte Vrace. Reporto um veículo atingido por fogo de morteiro e dois homens ferido, escuto!
3 – E1R; aqui Bravo líder, escuto!
4 - E1R; aqui Bravo líder. Dois feridos evacuados, escuto!
5 _ Bravo líder; E1R, entendido e terminado!
6 – Chamo-me Diana!
7 – Bravo líder para equipa Bravo; reagrupar, reagrupar, terminado!

16 Comments:

Blogger TMara said...

respriofundo a ver se passa ador no peito. E como estará o teu? Silecio-me para te ouvir. Bj de paz e luz :))

14 novembro, 2005 09:18  
Blogger Henrique Santos said...

Tenho de me recompor homem... que texto... também não sei pôr som nesta porra, senão ouvias os meus aplausos, porra!
Um abração e parabéns Manel!
Ricky

14 novembro, 2005 10:57  
Blogger Isabel-F. said...

texto soberbo...

como sempre...

tem uma boa semana.

bjs

14 novembro, 2005 12:13  
Blogger Cristina said...

Olá Manel,
Obrigada pela tua força no meu post de hoje :)

e parabéns pelo texto que aqui colocaste!
clap clap clap clap
:)

14 novembro, 2005 23:28  
Blogger Micas said...

Um texto para lá de excelente. Memórias que imagino jamais se apagarão. Pelo menos, que o tempo ajude a amaciar as lembranças desses periodos.
Beijinho e boa semana

15 novembro, 2005 10:02  
Blogger Isabel-F. said...

Vim agradecer-te as lindas palavras que me deixaste e que me sensibilizaram muito.
Obrigada.

Bjs

15 novembro, 2005 12:35  
Blogger Flávia said...

Nossa! Isso tudo é realidade sua?
Não consigo imaginar uma pessoa inventar um conto assim... Para mim é realidade. Desculpe-me a ignorância, pois desconheço sua vida.
Mas mesmo assim, é lindo e muito real a forma com que contas.
Beijoks e bom dia para vc também.
Kadu manda lembranças.

15 novembro, 2005 14:27  
Blogger vero said...

Olá Manuel...muito obrigada pelas simpáticas palavras que deixaste lá no meu blog!
Beijinhos***
:)

15 novembro, 2005 15:40  
Blogger Zica Cabral said...

magistral este texto Maneli. E que lição , mais uma vez, de história
recente e , ainda por cima ao vivo. Impressinou-me imenos a descrição do jipe e do camião. Os gritos e uivos de dôr e de medo.
A proposito de medo, o verdadeiro heroi, o corajoso , não é o que não tem medo mas o que o sabe vencer e ultrapassar os obstáculos que a vida lhe põe à frente, sejam eles tão dramáticos como os que viveste ou mais comesinhos como todas as dificuldades que temos que enfrentar no dia a dia.
Um grande beijinho amigo Manel. É uma honra grande "conhecer-te".
Zica

15 novembro, 2005 17:38  
Blogger paperl life said...

Boa moite. Vim pelo furão indiscreto. E tenho estado aqui alentejanamente a ler e reler.

Não comento. Se comentasse a forma desprezava o conteúdo e vice-versa. Vou é começar a passar por aqui.

:)
Obrigada.

(meu outro endereço: http://grunhidosvarios.blogspot.com)

15 novembro, 2005 20:51  
Blogger Furão said...

Às vezes pergunto a mim mesmo como terá sido possível que, desde que te conheci, há cerca de 13, 14 anos, sabendo das tuas inúmeras qualidades humanas e profissionais, tendo-te mesmo defendido contra coisas e coisinhas, merdas e merdinhas, me tenha escapado esta tua superior vocação para colocares as pessoas dentro de um teatro de operações ou outro qualquer teatro da vida através da escrita.
É óbvio que ouvir-te, quer a contares uma anedota, quer a narrares um acontecimento, já era uma dádiva de que poucos se poderão orgulhar de ter recebido. Mas daí até à comunicação escrita vai uma grande distância. E aqui conseguiste ainda superar-te.
A amizade não se mede pelos níveis culturais, aptidões literárias ou outras qualidades. A amizade existe ou não. E se existe é para sempre.
Mas quando, para além disso tudo, temos amigos brilhantes como tu, o que pedir mais numa amizade? Nada.

Apenas agradecer-te por existires

Um abraço do teu sempre amigo

Furão

16 novembro, 2005 15:19  
Blogger Poesia Portuguesa said...

Olá Maneli...
...se tivesses aqui o teu mail, dizia-te quem era... assim...fico imensamente grata pelas tuas palavras no Poesias... ;)
Abraço carinhoso ;)

17 novembro, 2005 13:33  
Blogger Menina_marota said...

Ler-te é um Privilégio!
E, estou grata por estes momentos de leitura... que não esquecerei!

Beijo ;)

Deixo-te um outro Blog... (sou a menina dos blog's...eheh)

http://www.mgrande.com/weblog/index.php/eternamentemenina/
;)

17 novembro, 2005 17:44  
Blogger Isabel-F. said...

Manel,

Passei a para te desejar um bom fim de semana.

Bjs

18 novembro, 2005 10:16  
Blogger TMara said...

desejo-te paz (pelo- interior) para este f.s. bj de luz e paz

18 novembro, 2005 11:02  
Blogger Viscondi said...

Rapaz que texto forte, comovente, sincero. Estou ao mesmo tempo chocado e extasiado. Nunca havia visto um texto tão direto sobre guerra. Não deveria existir guerra.

18 novembro, 2005 15:25  

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