quinta-feira, outubro 06, 2005

Potius mori quam foedari*

Ei gaiato, ei! – Tu aí, onde vais?
Aquela voz era inconfundível, o meu avô tinha um vozeirão directamente proporcional à sua bondade. Não me reconheceu, a vista já lhe ia faltando e usar óculos era impensável.
- Vou ó montado, a avó pedi-me pra ver se já há espargos! – Respondi.
- Ah! És tu. Já fizeste os deveres todos ca prossôra mandô? – Perguntou.
- Já avô, agora vou ao montado que se faz tarde e ainda quero cortar um galho pra fazer uma fisga.
- Na te empoleres nos sobreros altos que os troncos tão escorregadios da chuva.
- Tá bem! – Respondi enfadado com tanta recomendação, repetida vezes e vezes sem conta. Tudo por carinho e preocupação.
-Vê lá não me espantes o animal, dexó comer o pasto que rebentô agora cas chuvas!
Referia-se ao Paquito, animal de pelagem maioritariamente ruça, de grande porte e raça asinina. Faço questão de o chamar assim porque se lhe chamasse burro estaria a equipará-lo a muitos outros bípedes que conheço. Note-se, por exemplo, que os políticos que se digladiam na televisão não se tratam por mentirosos, mas dizem que o antagonista não está a dizer a verdade. Assim era eu com o Paquito, nunca o tratei por burro, sempre pelo nome e acredito que o bicho me compreendia melhor do que muitos da minha espécie.
Por vezes, quando me sentava encostado a um sobreiro para ler um livro qualquer, lá vinha ele mirar por cima do meu ombro, assim como quem também quisesse ler. Sabe-se lá!
Tinha uma particularidade, ria quando nós nos riamos, mostrando aquela enorme dentuça e abanando com a cabeça. Fui crescendo e a lembrança do Paquito foi-se esbatendo, apesar de nunca definitivamente esquecido. Já pouco me lembrava dele quando dei de frente com um bípede que o fez regressar à minha memória.
A animalária era conhecida por “cavalo” junto daqueles que com ele privaram mais de perto. Nunca um solípede sofrera tão vil comparação. Convenhamos, atribuir a tal besta qualidades próprias de um equídeo, tais como a nobreza, a fidelidade, a inteligência, o brio, o porte, a altivez, a par da valentia e da intrepidez, é o mesmo que comparar o ânus com a feira de Borba.
Mas porque raio teimava eu em me recordar do Paquito? O que tinha aquele asinino a ver com este “cavalo”? O riso não era porque este só sorria na presença de alguém que lhe fosse superior na hierarquia ou para algum bufo de estimação. Que seria então?
Recentemente, numa das minhas visitas frequentes ao meu Alentejo, lá voltei ao local onde me retirava para ler. Flash! Já está! Recordei-me do porquê da comparação. Urgia telefonar para o Comité Nobel ou para o Guiness Book of Records, havia descoberto um fenómeno da transmutação celular e do comportamento. Com prova científica e tudo. Um cavalo a falar já havia, quem não se recorda do Mister ED? Um asinino, repito, não um burro, a rir, já tínhamos o Paquito. Agora, um primata, apesar do polegar em oposição, apelidado de cavalo, com aspecto muar e comportamento de gebo, convenhamos que não é vulgar, mas ali estava.
Elegera como objectivo primeiro da sua vida a destruição de qualquer rasto de erudição ou cultura, ele e só ele poderiam deter o conhecimento e a verdade absoluta. Ai de quem se opusesse!
Para a prossecução dos seus fins arregimentou um tipo único de ser umano, não, não é erro, é mesmo assim, humano com h só quem de facto o merece ser. Retomemos; o arregimentado é um ser com enorme capacidade delatória, espongiforme, com apetência inata para lamber esfíncteres e dá, vox populis, pelo nome de bufo. A relação histórico-cultural estabelecida entre ambos estava desde o início invertida. Agora era o animal que havia domesticado o omem, tornando-o proscrito para os da sua espécie mas garantindo-lhe um habitat muito próprio de preservação, o eco-bufosistema.
Assim “montou” o cavalo (mais um paradoxo), a sua teia para destruir todos aqueles que lhe eram cívica e intelectualmente superiores. Há quem jure que o dito é portador de uma anomalia orgânica crónica, uma vez que parece ter o cólon descendente ligado ao cérebro, daí talvez a explicação para a quantidade inusitada de solturas cerebrais e ideias dejectas que tinha. Esquecera, ou desconhecia, que os genes da inteligência não são dados à porta de qualquer instituição académica, antes são-no no momento em que o vencedor do Grande Prémio Espermatozóico atinge o óvulo. Sem nenhum rigor científico sou pela afirmação que nem sempre o espermatozóide vencedor é o melhor, daí o haverem abortos com nove meses de gestação. Este é um deles.
Tentou, o abjecto, aliciar para a delação e para a conivência com a sua descarada incompetência uma alma que não se vendeu por meia dúzia de viagens à estranja e ajudas de custo correspondentes e para as quais o metamorfoseado tinha o poder de nomear quem lhe aprouvesse, embora jamais os mais competentes ou os mais habilitados. Por troca pedia relatos completos de tudo o que se passava na estrebaria, digo, no serviço por ele dirigido. Mas o chefe teria de parecer ser o mais capaz, daí o enviar dos menos qualificados que ele, o que, diga-se em abono da verdade, era tarefa difícil. A tal alma prezava mais valores morais do que os da bolsa de valores, acabando por ser distinguido com o prémio de “Ódio de estimação do ano” e a partir daí passou a ser a figura central do jogo de setas que o equídeo, hábil e disfarçadamente, pendurou por detrás da porta da box, digo, do gabinete.
O ferrado jamais havia encontrado alguém que dissesse não às suas manigâncias. Pensava ele, naquele cérebro inculto mas recheado de alimento para oxiuros, que jamais alguém resistiria ao apelo dos cifrões e das viagens. Enganou-se, e toda aquela sedução pútrida se transformou num ódio de proporções iguais à sua bestialidade. Tenho para mim que valores como a amizade, o amor, a fidelidade, entre outros, são absolutos, isto é, não se ama ou se é amigo a X%, ou se é ou se não é. Em valores que interferem com a confiança que outros depositam em nós, não podemos ser percentuais, ou somos ou não somos. O quadrúpede não entende isso, não lhe está nos genes e, como acontece amiúde na história das organizações, não sendo desejado em lado nenhum, acabou a puxar uma carroça que é, para o mal ou para o bem, um dos espelhos do país lá fora. Que bem representados estamos. É mais uma vez o meu “portugalzinho” que prefere a suficiência à excelência.
Se instâncias superiores sabem disto? Claro que sim! A mensagem chegou-lhes, mas a agenda e o compadrio político, para além de terem de reconhecer que erraram na nomeação, impedem-nos de agir. O que fazer quando no âmbito das incompatibilidades para o exercício da advocacia um ex-chefe militar, então no activo, logo abrangido por uma incompatibilidade, estagiou precisamente no escritório de advogados do actual Presidente da República? Em que condições o fez? Com que cobertura legal?
Medos? Tenho alguns, mas seguramente não passam pelo enfrentar de cobardes, compadres e alguns políticos corruptos com o rabo preso e comprometidos com cores partidárias. Acredito na justiça e no direito que lhe é subjacente, mas não em algum direito positivo que lhe é avesso. Todas as noites, sem excepção, quando encosto a cabeça à almofada durmo um sono tranquilo a nível de consciência. No entanto, por vezes é atormentado pela promoção constante da incompetência, porque isso, fatal e inexoravelmente, afectará as gerações futuras, os meus e os vossos descendentes. A prová-lo estão centenas de quadros de empresas estrangeiras em Portugal e no estrangeiro que não conseguiram entrar nas empresas do Estado.
* Antes a morte que a desonra.

17 Comments:

Anonymous Anónimo said...

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06 outubro, 2005 17:07  
Blogger Zica Cabral said...

chorei a rir. És de facto um génio da escrita. As analogias estão geniais.
Beijinhos e adorei o post
Zica

06 outubro, 2005 21:22  
Anonymous Anónimo said...

Oh mas que ganda porrã. Este magano tem mesmo a pinta de quem levou com 1/2 tonelada de bife pas ventas e nã têm mesmo mêdo, porrã.
Ganda Mano. Ganda Manel. Ai que me ia atraiçoando chamando-te como gosto de chamar. Mas eu sou amigo e tenho cuidado de preservar aquilo que os meus amigos me pedem para preservar. Por outro lado, como fui bafejado por um esparmatozóide com alguma inteligência, não é que herdei a perspicácia do PAQUITO e consegui identificar todas as bestas aqui citadas?
Um grande abraço.
Porra que cada vez mais me sinto um felizardo por ter um amigo como tu. Bem-hajas.

07 outubro, 2005 00:19  
Blogger Furão said...

Para já, as minhas humildes desculpas por não te ter "visitado" nos últimos dias neste teu cantinho de elevada qualidade. Mas quem perdeu fui eu e só eu. Porém, estou sempre a tempo de recuperar, rodando com o rato para baixo e lendo o que não ainda não tinha lido.
Quanto ao estábulo onde reina a criatura, esqueceste-te decerto de mencionar que a dita necessita de alimento, boa escova, tratamento diário. Tenho muitos animais em casa e sei o que isso significa. Com uma pequenina diferença: eu amo os meus animais. Daí a pergunta e uma reflexão que deixo no ar:
Porque será que a besta continua a trotar, de forma trôpega, é certo, mas lá continua?
Quando uma besta não é amada nem respeitada, é perigosa, tem comportamentos desviantes, e um diagnóstico de recuperação muito reservado, o que fazer? Diria que sob a forma de bifes ou "hamburgers" ainda poderia matar a fome a muita gente. Esta decisão sempre esteve e está na mão dos trabalhadores do estábulo. Isto é tão óbvio que nem valeria a pena ser mencionado.
Então porque será que eles o continuam a escovar, a alimentar e a tratar, dizendo depois nas suas costas que se trata de um equídeo sem valor no mercado cavalar?
Das duas, uma: ou não são trabalhadores mas simples mulas de companhia, ajudando à deterioração do estábulo, ou serão trabalhadores que, a troco da besta os levar a passear estarão por tudo. Estou inclinado para as duas ao mesmo tempo...

07 outubro, 2005 17:30  
Blogger Furão said...

Como tantas vezes defendi nos momentos em que referia Jacques Derrida, não há dúvida que uma escrita ganha mais e mais vida à medida que é lida. Enriquece-se por si só. A tua, neste caso, é paradigmática do que mencionei. Ambos conhecemos a besta e, cada vez que leio o teu texto, mais sinto nele a "erosão" manifestamente provocada (por estupidez ou ignorância) de uma construção muito difícil de erigir, da qual tenho o supremo orgulho de ter sido um dos arquitectos, contigo, com o Professor (fica o cognome), e diria mesmo com aquele homem que pensava constantemente "coordenar a manobra". Depois de velhinhos nestas coisas começamos a ver quem é quem, com quem podemos abrir-nos, a quem confiar os nossos segredos. Manel, por isso mesmo, não te "estiques"! Mantém-te afastado dos invertebrados e conta com aqueles que jamais te decepcionarão! Lembro-me de alguém que disse ao cavalo, num determinado ano, em Janeiro: "Não estou disponível para mais nenhuma viagem ao estrangeiro, por razões pessoais e familiares". Esse "alguém" nunca mais viajou no dorso do equídeo, embora continuasse PESSOALMENTE nas suas viagens pelo estrangeiro. Esse facto, por muito que os inúmeros "amigos de ocasião" desejem, jamais será negado. Ficou na história. Esse alguém teve quase uma nomeação imperativa e, diria mesmo "militar", para visitar a Suécia. Recusou. Nunca mais viajou desde o dia em que proferiu a promessa. Esse alguém ainda existe e ainda se rege por valores inabaláveis de ética e de amizade.

Recebe mais um abraço deste humilde co-arquitecto





P.S. Só rezo para que o Professor se mantenha firme nos seus ideais.

07 outubro, 2005 23:12  
Blogger Manel do Montado said...

Quebra de regra.
Jamais pensei responder a um post colocado no meu cantinho, mas aí vai.
O meu muito obrigado pela paciência de me lerem pois é para todos que escrevo. A ti furão, meu companheiro de longas jornadas que mais queres que te diga? A elevação no sentido em que a conhecemos para outros resume-se à capacidade que um elevador tem de subir. A camaradagem compartilhada ao longo de mais de uma década não foi ocasional e fruto do momento, forjou-se no respeito e consideração pessoal e profissional.
Todos temos coluna vertebral mas a sua elasticidade varia de acordo com a "massa" de que se é feito. Não chamo amigo a todos quantos conheço mas orgulho-me de te ter no canto do meu peito dedicado àqueles de quem gosto e que, sabes bem, jamais atraiçoarei em circunstância alguma. Sou assim porque o meu pai me ensinou que um homem de duas caras é igual a um cu, ambas as faces são diferentes e do meio só sai m...!
Ao anónimo que ornamenta também este cantinho a minha amizade, estima e consideração por ele são inabaláveis e só assim as compreendo.Sei que o sabes e isso descansa-me.
Aos meu novos amigos que visitam o meu cantinho, uns mais frequentemente que outros (Zica =100% presenças), vou aos vossos cantinhos buscar alguma calma na poesia escrita e da imagem com que fazem o favor de nos brindar, e porque não dizê-lo também alguma inspiração.
A todos o meu obrigado pela pachorra de me lerem.
Ab imo pectore (Do fundo do peito)
Maneli

07 outubro, 2005 23:30  
Blogger Isabel-F. said...

Adorei ler o teu texto Manuel...está divinal...

Bjs

10 outubro, 2005 16:04  
Blogger Zica Cabral said...

Manel, o poema que comentaste no meu blog é a letra de uma musica que eu fiz (letra e musica,claro) para os meus alunos pequeninos (dos 6 aos 10) cantarem. Faz parte de uma serie . A musica para mim servia e sempre serviu como base de uma educação civica , além de puro deleite, como é evidente. Assim, aproveitei para incutir nas crianças o amor pela Natureza e não só. Publicarei mais deste genero e obrigado pelo teu comentário fiquei toda babada!
Beijinhos
ZIca

10 outubro, 2005 17:49  
Blogger Zica Cabral said...

Ah devo acrescentar que , se desde que descobri o teu blog sou assídua e pontual, a culpa é tua por escreveres tão bem e sobre assuntos tão interessantes

beijinhos e continua sempre

10 outubro, 2005 17:55  
Blogger travishill4759 said...

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12 outubro, 2005 19:44  
Blogger Zica Cabral said...

Manel , obrigado pelas tuas palavras acerca do meu trabalho. È muito gratificante recebê-las vindas de ti que escreves tão bem.
As imagens....bem confesso o meu orgulho nelas mas tenho aqui tudo, é só escolher e clikar na maquina, não é merito meu que a cada passo que dê veja coisas t~~ao bonitas que não resisto a fotografá-las.
Anteontem às 11,30 da noite, a caminho de um super mercado aberto toda a noite, passei por uma árvore LINDA. Como não levava a máquina não tirei as fotograias que queria, Mas hei-de descobrir onde está e fotografá-la.
A unica coisa que é preciso é ter os olhos bem abertos pe a alma tb, para ver as belezas....mesmo estando a guiar!!!!!!! Qualquer dia estampo-me!!!!!!!

Beijinhos grandes
Zica

12 outubro, 2005 21:41  
Blogger Isabel-F. said...

Oi Manuel...

não deixes de ir ver o meu Post de hoje... acho que vais gostar...

Bjs

13 outubro, 2005 12:14  
Blogger Henrique Santos said...

Meu caro, onde estava eu que não tinha descoberto a pólvora, digo, MONTADO... Como eu consegui aqui no trabalho ler sem me escangalhar a rir alto e bom som... Que maravilha... Vou voltar com mais tempo... maravilha, repito!
Um abraço, Ricky

13 outubro, 2005 16:18  
Blogger Zica Cabral said...

mais uma vez obrigado pelas tuas simpaticas palavras. Este post , por acaso escrevi-o ontem mas tenho muitos milhares de "post" que gostaria de pôr ,mais ou menos do mesmo teor embora não sempre sobre o mesmo assunto. Infelizmente , assim como os meus livros, jazem ainda em caixotes em Portugal. Um dia hei-de ter estantes, gavetas, prateleiras e afins num espaço meu, para os pôr. Até lá, vou pactuando com o meu amigo alemão (alzheimer) para que me deixe alguns resquicios de memoria e de deixe, tb, lembrar de tudo o que eu tinha nos meus 3 mil livros que estão em Portugal e que li com sofreguidão.
Tenho muitas saudades deles......
beijinhos e obrigado
ZIca

13 outubro, 2005 16:32  
Blogger Isabel-F. said...

Oi Manuel...
a propósito de saudades...
nos links do meu Blog... experimenta ir a MGM - Moçambique Gentes & Memórias (é um espaço do MSN, de que sou gerente, e onde se matam saudades de Moçambique)...

Bjs

13 outubro, 2005 16:38  
Blogger Menina_marota said...

Bem... cada vez me dou mais razão, que não devo ler nenhum comentário, antes de fazer o meu próprio, ao ler um texto que me agrada.
Mas confesso, li os comentários todos e, depois perdi-me neles e, verdade seja dita, a quilo que ia dizer afinal já não tem razão de ser... bem... teria ainda, mas não gosto de ir pelas ideias dos outros, por isso, permito-me dizer, que para além de ter adorado este magnifico texto, encantei-me com os comentários!

Um abraço e bom fim de semana :)

14 outubro, 2005 11:39  
Blogger Micas said...

Para lá de soberbo este texto. A mudança no nosso país tem que começar primeiro pela mudança de mentalidades. É pena que hajam poucos como tu. Adorei este texto.
Agradeço as palavras tão gentis lá em "casa".
Por aqui não se vislumbra um futuro risonho, a começar pelo novo ministro da economia, qualquer dia escrevo sobre isso, para já o tempo tem andado curtinho, curtinho.
Beijo e boa semana

17 outubro, 2005 16:57  

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