segunda-feira, outubro 24, 2005

From Russia with Love.

A notícia atingiu-me como uma bomba. O Muro de Berlim havia caído e o leste da Europa começava a respirar novos ares. Recordei algum tempo, quando jovem, que passara naquela cidade com uma amiga dali natural, ainda no tempo do muro da vergonha. Onde quer que esteja desejo que esteja bem. Foi ela a mulher que contribuiu para limpar uma imagem distorcida que tinha do povo alemão. Recordei então a ponte aérea que salvou aquela cidade décadas antes e até as agruras a que foi sujeito o povo alemão nas mãos dos russos, após se ter livrado do Adolfo e sus muchachos.
A vol d’oiseau recordo que foi aquele facto histórico, entre outros ocorridos desde o início do papado de João Paulo II e por impulso deste, que proporcionaram a abertura ao desarmamento na Europa e à possibilidade de, pela primeira vez, os países da NATO e os do Pacto de Varsóvia se inspeccionarem mutuamente para aferirem do cumprimento do tratado que havia sido implementado para o efeito.
O tratado em questão, denominado Treaty on Conventional Forces in Europe (adiante CFE), tem como âmbito geográfico o território continental e insular compreendido entre as ilhas atlânticas dos países ocidentais e os Montes Urais, então em território da ex-URSS.
Dois anos volvidos e devido às políticas de abertura levadas a cabo por Mikhail Gorbatchov, sucedido por Boris Yeltsin, a URSS desmoronou e novas nações emergiram, não impedindo que o dito tratado prosseguisse os seus fins, dando inicio à sua vigência efectiva em 1992.
Os governos de várias nações encarregaram então os militares para aferirem do cumprimento dos termos do Tratado. Face a este novo desafio e face às três principais vertentes do mesmo; a jurídica, a linguista e a de conhecimento efectivo dos equipamentos militares, urgia preparar homens nessa área para o desempenho da missão. Para o efeito foi criada uma unidade sobre a qual impedia a tarefa de representar Portugal na prossecução dos fins daquele Tratado.
Houve, desde logo, quem se agarrasse com unhas e dentes à tarefa de impor uma imagem de competência e profissionalismo sério que obliterasse a imagem de um Portugal pequenino. O Furão foi um deles, quiçá, sem desprimor para qualquer jurista, o homem que mais entendia os mecanismos jurídicos do Tratado. Para além da formação que foi dando às novas vagas de inspectores, era o homem responsável pela resolução de qualquer “equinócio”, isto é, qualquer divergência interpretativa na aplicação das normas internacionais. O seu nome e a sua presença em qualquer inspecção eram sinónimos de seriedade, de profissionalismo, de patriotismo esclarecido, do afirmar do empenho de um pequeno país no ombrear com as grandes potências e não num seguidismo bacoco e despropositado. Durante mais de uma década, o prestígio de Portugal também foi obra do Furão, mais, foi a obra do Furão.
Outro homem, o Professor, cognome que justifica de pleno o seu conhecimento das matérias relativas a Troca de Informação sobre a qual Portugal se havia comprometido internacionalmente, é ainda hoje uma pedra angular no sucesso de qualquer inspecção e na consequente boa imagem de que Portugal gozou durante algum tempo.
É um homem de excepcional capacidade que só tem par na humildade com que explana o que sabe e tenho para mim que muito poucos haverão com a sua estirpe. Tive o privilégio de o ver bastantes vezes, após horas a fio como intérprete, de inglês para russo e vice-versa, tendo no meio de pensar a arrumação gramatical em português, ainda discutir pormenores técnicos com uma clarividência espantosa.
Quero com isto enfatizar que hoje a apreciação do desempenho é feita, pelos nossos congéneres de outras nações, ao nível individual e não ao nível de Equipa nacional. Tudo porque uma “coisa”, antes denominada cavalo, passou a gerir tal unidade e se propôs, desde o início, à destruição daquela, fazendo a vontade aos políticos que querem desacreditar as Forças Armadas e os militares.
Outros homens, como o Arquitecto e o Figas, com uma capacidade linguística menos fluente, deram cartas na forma diplomática de abordar e solucionar as questões mais diversas. Do primeiro recordo um discurso, ainda bem no início do Tratado, ou bem no fim da Guerra-fria, como queiram. As faces em redor da mesa estavam crispadas, pois havíamos sido antagonistas durante quase meio século e ainda ninguém havia descoberto a fórmula para quebrar o gelo. A inspecção decorrera bastante formal e de certa forma tensa. No almoço do penúltimo dia, ainda na base russa, chega a vez do Arquitecto botar discurso em resposta ao discurso do oficial comandante da unidade inspeccionada e sai-se mais ou menos com esta:
- Em tempos ensinaram-me que vocês eram o meu inimigo, o urso russo que queria dar cabo da Europa ocidental. Durante anos estudei os vossos equipamentos, símbolos e tácticas, via-os como seres malignos que queriam dar cabo do nosso modo de viver. Agora olhando-os nos olhos, vejo-os como camaradas de armas, como meus pares, como homens com as mesmas preocupações que as minhas; o criar a família em paz e prosperidade. Nós não somos políticos e ninguém como nós sabe o sofrimento que os povos passam se formos para a guerra. A nossa missão é pois, mostrar ao poder político dos nossos países que mais do que ninguém sabemos o valor da paz e que a queremos preservar para sempre. A partir de hoje não os conseguirei imaginar no outro lado da barricada, por isso brindo....
No outro lado da mesa havia olhos molhados e no de cá também, eu pelo menos. Do outro, do Figas, pai da calma e paladino do bom entendimento entre as pessoas, recordo uma situação em que, perto da hora de almoço, não aparecia uma chave para se abrir uma porta, estando o seu homónimo quase no ponto de perder as estribeiras com os seus subordinados. Vai o Figas, põe aquela máscara de indiferença sobre o que se estava a passar e pergunta ao intérprete se sabia qual o motivo de tanta espera. O outro disse-lhe que faltava contar um equipamento e que esse estaria guardado precisamente naquele hangar. Vai o Figas volta-se para o seu homónimo e pede ao interprete que traduza:
- Se você diz que o que falta está aí dentro eu acredito, não é necessário incomodar o homem da chave que se calhar já está a fazer o que nós devíamos estar também a fazer, isto é, a almoçar. Se quiser cá voltar de tarde para nos mostrar o equipamento, tudo bem, mas não fazemos questão.
É claro que o outro se sentiu imediatamente aliviado e aquele simples desanuviar de tempestade latente, apanágio do Figas, foi a porta que se abriu para o resto da inspecção. Voltámos lá da parte da tarde, o outro, não o Figas, fez questão.
Orgulho-me de ter servido com este tipo de homens, verdadeiros representantes do que Portugal de melhor pode oferecer ao mundo. Deles não se dá público testemunho oficial porque obliterariam de imediato os asnos que por aí zurram em excelentes imitações da língua portuguesa, da mesma forma que destronariam o compadrio instalado.
Há omens (sem erro) que não merecem ser homens, quanto mais chefes militares que são coniventes com um maneirismo pouco másculo em ascensão e uma governabilidade cega, surda e estúpida.
De outros, dos bons, escreverei em tempo oportuno. Tenho para mim que a história destes homens terá de ser contada um dia, sem o filtro dos oportunistas e carreiristas que estão nas Forças Armadas não para as servirem, mas sim para delas se servirem.
Lamento que nesta história, como noutras, vá o burro montado no velho e no rapaz. Mas não é esse o exemplo de Portugal ao mundo?
Carpe diem.

9 Comments:

Blogger Micas said...

Já cá tinha vindo beber um pouco do teu conhecimento, mas não consegui comentar :( Grata por cá andares, fazes a diferença

25 outubro, 2005 00:01  
Blogger Jimmy said...

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25 outubro, 2005 00:08  
Blogger Isabel-F. said...

Bom dia Manuel...

Gostei de ler... e de ficar a saber sobre este assunto, que desconhecia...

Obrigada...

Bjs

25 outubro, 2005 11:43  
Blogger Flávia said...

Oi Manuel! Primeiramente, seja bem vindo ao Missisclof, volte quando desejar. E NOssa Senhora, seu post é um tratado de geopolítica!!! Me fez lembrar o meu prof. "Panela", que explicava geopolítica para a gente, mas infelizmente, não tinha esta visão e vivência que vc tem. Muito bom, é outra visão para nós, sul americanos, pois aqui o negócio é um tanto tendencioso para o lado norte-americano (BAH!).
Beijoks e até a próxima.

26 outubro, 2005 00:31  
Blogger Zica Cabral said...

Manel é bom lembrar a historia recente e os valores humanos que a fizeram. E que são esquecidos ou ignorados. Em vez dos verdadeiros herois surgem-nos "coisas" pequenas, pequeninas mesmo, arvorando-se em mentores e e em grandes obreiros. Vestindo-se de um prestigio que não merecem. Mas
se os que verdadeiramente estiveram por trás das grandes obras e feitos, não forem recordados pelos seus congeneres, só ficarão para a Historia e para os nossos descendentes, essas "coisas" degradadas e degradantes que fazem publicidade de si proprios.
Bem hajas Manel por nos teres dado essa lição de Historia que tu proprio viveste e repores a verdade no seu devido lugar.
bjs grandes
Zica

26 outubro, 2005 07:13  
Blogger Nina said...

Um bom texto...parabéns.

Beijinho :)

26 outubro, 2005 13:45  
Blogger Furão said...

Caro Manel, o que dizer?...
Ficando sem palavras, restam-me apenas algumas pequenas farripas de letras, dispersas, entrecortadas, mas em consonância com dois propósitos fundamentais: o agradecimento profundo do teu gesto, numa perspectiva pessoal e de grande amizade, e, em segundo lugar a recusa terminante em assumir ou aceitar epítetos que seriam sido de todo inaplicáveis se não fosse o incrível trabalho de uma equipa de Homens (não me enganei na maiúscula). O teu lugar nessa equipa era indispensável, e tu sabe-lo. Estes Homens estão hoje dispersos, pelos mais diversos motivos. No entanto, ainda há bem pouco tempo, à volta de uma mesa estiveram cerca de duas (!) representações nacionais onde apenas faltavam pouco mais do que 3 elementos, para que se pudesse dizer: os melhores Inspectores que Portugal já teve nesta área, tão delicada diplomática e tecnicamente. Estes Homens estão dispersos mas sempre presentes quando chamados, como aconteceu "in factum" (é assim, Manel?).E deixa que fiquem connosco apenas as memórias do que realmente foi motivo de orgulho para todos nós e para o nosso país. Não falemos mais em coisas.

Bem hajas, Manel!

26 outubro, 2005 16:02  
Blogger Menina_marota said...

A História do nosso Portugal terá que ser (re) contada.
Sobre factos, Homens e memórias de acontecimentos, que jamais deverão ser esquecidos!
Ler-te, é descobrir aquele Portugal em que acreditava. Aquele Portugal que cresceu dentro de mim, sem ser uma utopia.
Sobre Homens que fizeram um percurso, que “muitos” querem ver esquecido!
Temos uma Herança a deixar aos nossos descendentes: que ela seja a da Verdade, de todos os factos, de todas as memórias, de Homens que lutaram por um ideal, com a sua consciência, com a sua força interior.

Sinto-me Orgulhosa em ler-te...

Um abraço carinhoso ;)

27 outubro, 2005 14:01  
Blogger O Transmontano said...

Gostê de leri, gostê de veri.
Estás um espectáculo. Quer na escrita, quer na postura, quer na enorme coragem com que abordas os temas. Há políticos que não são profissionais e há ENORMES PROFISSIONAIS como tu, que fazem muito bem em não quererem ser políticos. Se um dia reconsiderares, terás indubitavelmente o meu voto.
Grande amigo. Um abraço.

01 novembro, 2005 20:44  

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