quarta-feira, setembro 07, 2005

Nota de Abertura

Sentado na esplanada de um café na Avenida da Igreja, em Lisboa, zona onde resido e me sinto imigrante, numa destas tardes de Setembro, a adivinhar a abençoada chuva, vou bebericando o aperitivo para a janta, ouvindo de forma discreta, mesmo sem querer, a conversa da mesa do lado, cujos três intervenientes, diga-se en passant, faziam pouco caso de serem ou não ouvidos.
Enquanto lia O Independente, intercalando com uns golinhos no meu Gin tónico, sempre com o ruído de fundo da bendita conversa, fiquei a saber que um dos cavalheiros era um quadro alto numa empresa de renome, outro pareceu ser economista e o terceiro, o mais falador e o melhor apetrechado com sistema de som dado pela natureza, era, de acordo com o próprio, director de qualquer coisa num órgão de soberania nacional. Tudo gente com formação, perdão, com um grau académico, dedução retirada face ao formalismo com que se tratavam entre si.
Aquilo era de “xôtor” para cá e para lá.
Haviam acabado de jogar uma “futebolada” no Inatel e estavam ali a abrir o apetite para a janta, já que aquela tarde de sexta-feira ia quente.
Falaram nas férias em Cabo Verde, tecendo elogios às fêmeas locais, às mariscadas que comeram e às praias espectaculares que frequentaram. Gozaram aqui e ali com a pronúncia portuguesa de alguém que até os recebeu na sua casa e lhes ofereceu uma jantarada. A conversa ia decorrendo brejeira, com umas tiradas menos correctas que outras, do ponto de vista do domínio da língua pátria, até que se ouviu uma sirene, altura em que a conversa mudou para o flagelo dos incêndios que assolou, mais uma vez, o nosso Portugal.
Apesar de imbuídos de certezas absolutas porque a empresa onde um trabalha fornece serviços ao Estado e conhece “muita gente com influência”, outro porque trabalha para o Estado, “ao nível da estrutura governamental” e o terceiro, o economista, porque “está muito bem informado, já que o seu chefe é unha com carne com o ministro d…”.
Cada um discorreu o melhor que sabia sobre a problemática dos incêndios, de como deveria estar estruturada a organização e comando dos Bombeiros e da Protecção Civil, etc., etc.…
Cada um lá terá a sua opinião e eu cá pelo meu lado respeito-a, uma vez que não domino conhecimentos suficientes sobre a matéria para contestar ou apresentar melhor solução.
A conversa era agradável e ajudava a passar o tempo. Eu mantinha o jornal aberto somente para não ser óbvio de mais que estava a ouvi-los a 100%. As tricas do este conhece aquele, do aquele é incompetente mas o “fulano de tal” exigiu uma colocação para ele na Protecção Civil, pois quando este foi tropa o outro safou-o de boa, devido a uns dias de férias a mais, etc. Repito, estas tricas interessam-me mas apenas por mero gáudio.
Até que a palavra mágica foi proferida. Ribombou, qual trovão ensurdecedor, transportando-me de imediato às memórias de um passado ainda relativamente recente, em que alguém que me chefiou numa outra era, fazia gala num português ao mesmo estilo, sendo useiro e vezeiro nesta expressão, ora repetida, de conjugação errada do verbo Haver: - Vocês hadem ver!
Um dos “xôtores” havia proferido a password para o meu descontentamento, já não bastavam as calinadas sobre os tipos arborícolas da floresta portuguesa, a atribuição de significados errados a siglas de organizações ambientalistas, tudo desculpável até ali, agora chegava, urgia tomar notas de tudo o que pudesse causar hematomas à Gramática da Língua Portuguesa. Exclamei:
- Senhor X (o empregado de mesa, pessoa que conheço bem) tem uma esferográfica que me empreste por favor? – Já agora mais um ginzinho tónico que a tarde promete, com bastante gelo por favor!
Fui tomando notas discretamente, à margem do jornal, assim à laia de quem está a fazer palavras cruzadas, anotando tudo o que havia sido dito e sobre o que se seguiu. Hábito que me ficou das reuniões havidas com o tal chefe, uma vez que o homem tinha o hábito adquirido da “calinada reiterada com convicção”, negando em seguida havê-las proferido.
Este, para além de máximas como “o meu antigo sucessor”, “temos de avançar p’rá frente!”, ainda entregava documentos manuscritos que se “bateriam” depois em computador, “insistindo” em colocar os acentos tónicos na vertical, cabendo ao escriba a determinação da acentuação correcta da palavra, sempre coadjuvado com a preciosa ajuda do corrector do Word, existência que o dito chefe desconhecia. Agora estava tudo de volta com estes chefes de alguma coisa (espero que não), nalgum lugar. Fiquei a saber que a sigla Quercus, que não é sigla nenhuma, quer dizer “não sei o quê” numa língua qualquer. O “xôtor” da melhor projecção de voz não é obrigado a saber o que quer dizer o nome daquela organização ambientalista, agora o que não deve fazer é inventar. É que quercus é carvalho em latim, e que, segundo sei, é uma família de árvores da qual fazem parte, para além daquela, o sobreiro (quercus sober) e a azinheira (quercus …), já não me lembro. Outro esclarecimento, o eucalipto não é originário do norte da Europa, mas sim da Austrália.
Levantei-me e dirigi-me a um quiosque próximo, dizendo ao empregado de mesa que voltava já. Comprei um envelope e respectiva folha de carta e escrevi ali mesmo no quiosque as correcções que entendi fazer ao que acabara de ouvir, não porque seja um especialista na língua portuguesa, agora o que também não sou é inventor da mesma. Paguei, aproveitando para comprar os “Cem anos de solidão”, a dois euros e qualquer coisa. Que barata que está a leitura de um bom livro.
Em seguida dirigi-me ao balcão do café e paguei os dois gins tónicos, pedindo ao Sr. X, o empregado de mesa, que entregasse o envelope àqueles senhores, pedindo-lhe para dizer que quem o fez já havia saído, voltando, no entanto, a sentar-me na esplanada. Esperei o efeito. Fi-lo por raiva daqueles, poucos espero, que ocupando lugares de chefia fazem do seu dia a dia uma forma de obstrução contínua à cultura, fazendo gala de um analfabetismo moderno e militante, promovendo as suas carreiras por meio de processos ínvios, ou por aplicação diária de práticas BEMC (Bufos, Engraxadores e Maus Colegas, Companheiros ou Camaradas).
Fi-lo em nome do Sr. X, empregado de mesa de profissão, a quem os “xôtores” insistiam em chamar “psssst”, sabendo eu que o nome do senhor não é aquele, e a quem nunca disseram “por favor traga mais isto ou aquilo”, resumindo-se os seus pedidos a “São mais três imperiais!”.
Fi-lo também porque não gostei do tom jocoso com que se referiram à pronúncia portuguesa das gentes africanas, partindo o gozo de quem larga calinadas do calibre daquelas que ali se largaram.
De imediato após a leitura das anotações pelos três, dois deles baixaram de imedaito o volume, ouvindo-se o terceiro, o tal da melhor projecção de voz, fazer alusões à minha progenitora, conotando-a com a mais velha profissão do mundo, talvez tomando como exemplo alguém que conheça, sendo repreendido pelos outros, contribuindo esta atitude para um maior crescendo de voz, rematando com:
- “Se o Alberto João chama filhos da p… aos jornalistas na televisão, eu não o posso dizer na m… de uma esplanada?”
Pois é “xôtor”, a algumas pessoas o “canudo” só serve para lhes tapar o tamanho das orelhas e quanto à educação e ao comportamento em sociedade, escolheu o paradigma perfeito de cavalheiro.
Levantaram-se, pagaram e foram às suas vidas. Vejo-os ocasionalmente, sempre cheios de si. Lá se sentam de vez em quando, também ao fim da tarde, agora num canto da esplanada, falando num tom de voz dentro da normalidade aceitável, poupando a sensibilidade auditiva dos que também frequentam aquelas paragens.
A todos que amam a cultura, sobre qualquer forma que surja ou tome figura, bem vindos ao meu espaço que é também o vosso.
Há lugar à sombra para todos debaixo das copas dos quercus sober deste montado.

5 Comments:

Blogger Furão said...

Entraste como eu esperava neste primeiro dia de blogue. Tenho a certeza que isto promete, ó se tenho! Eles hadem ver!

..."transportando-me de imediato às memórias de um passado ainda relativamente recente, em que alguém que me chefiou numa outra era, fazia gala num português ao mesmo estilo, sendo useiro e vezeiro nesta expressão..."

"Fui tomando notas discretamente, à margem do jornal, assim à laia de quem está a fazer palavras cruzadas, anotando tudo o que havia sido dito e sobre o que se seguiu. Hábito que me ficou das reuniões havidas com o tal chefe, uma vez que o homem tinha o hábito adquirido da “calinada reiterada com convicção, negando em seguida havê-las proferido"

O que eu me ri hoje com a coincidência! E não é que também já tive um "pseudo-chefe" assim?

08 setembro, 2005 18:15  
Blogger Zica Cabral said...

eles hadem ...de....ver (ainda é mais completo, com o "de" e cada vez mais usual) se eu não venho aqui mais vezes!!!!!!!
Pois é, para já quero agradecer a tua visita ao meu blog e o comentário que lá deixaste , depois quero dizer que me "diverti" com este primeiro post.
Ponho entre aspas porque é uma diversão amarga por ver o meu País entregue em mãos como estas. As boas pessoas não queremm nada com o poder e, as poucas que ainda acreditam que poderão mudar alguma coisa, veêm-se engolidas, lixadas, queimadas e cilindradas nos primeiros dias
Infelizmente pelas minhas andanças pelo país, em trabalho, tive ocasião de conhecer muitos "xotores" deste tipo, malcriados, ordinários e, muitos deles, nem a 4ª classe tinham (o que em si não é vergonha nenhuma se a pessoa não tiver vergonha de si proprio). Os outros poderiam ter ou não andado numa universidade mas o que aprenderam foi pouco sobretudo em materia de civismo. É impressionante como o "poder" corrompe e torna as pessoas MUITO pequeninas.
Achei LINDO, teres entregue o papelinho com as
observações/correcções aos ditos fulanos...........
Já está muito longo o comentário
beijinhos e aparece sempre. Eu vou fazer o mesmo aqui

21 setembro, 2005 17:12  
Anonymous Anónimo said...

Ah como é linda a cultura!!! Como é nobre a educação e a humildade que brota genuinamente dos corações dos puros!!! Já me delicei com tudo o que li!!! Bem-hajas. O melhor legado moral que poderás deixar aos teus filhos é a tua nobreza de carácter, o espólio de verdadeiros amigos e o exemplo que és em todas as parcelas da tua vida.
Esses tais de "xôtôs" apenas "hadem" deixar àqueles que os chamam de Pai, um vazio imenso e uma presunção comprada na loja dos 300, sem ofensa à loja, claro.
Um grande abraço. Obrigado por existires e permite-me que te dedique uma frase que li e que te assenta que nem luva: - "Há homens que marcaram uma geração e irão, sem dúvida marcar uma época. Quem sabe tu não serás um deles!?!"
Um GRANDE ABRAÇO e obrigado por seres meu amigo.

22 setembro, 2005 18:54  
Blogger depassagem said...

Gostei!

20 fevereiro, 2006 17:10  
Blogger Biológica said...

Em bom latim: Quercus suber ( em itálico) ;)
beijos

27 março, 2006 01:13  

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