Segunda-feira, Julho 16, 2007

Resgato-me e digo-te adeus...

O tempo, tal como eu, alterna entre o solarengo e o nublado, da mesma forma que alterno entre o alegrete e o taciturno. Dói-me a alma. Um vazio profundo apoderou-se de mim desde que a minha vida ficou mais pobre pela partida da Lis. É assim, não o posso evitar e antes ferir por sinceridade do que iludir pela mentira.
Que me perdoem outras mulheres que me amaram ou, eventualmente, ainda amam, mas as que me conhecem sabem que sou sincero no que afirmo e nunca escondi que tive outros amores na vida.
Sempre usei o “amo-te” sentindo-o fundo. Esta simples expressão encerra em si, quando provida de sinceridade, a entrega de tudo ao outro, sem reservas. Alma, coração, corpo, pensamentos, alegrias, tristezas, sucessos, fracassos e todos os pormenores de vida que se partilham com quem se ama.
Gostar ou sentir “tusa” por uma mulher não é amá-la. È meramente a tradução de um sentir físico e fisiológico, nada tem a ver com amor, mesmo quando o sexo é de óptima qualidade.
Amar uma mulher é outra coisa. É irracionalidade pura. É admirar-lhe os pormenores femininos, os sorrisos, os olhares – por vezes insondáveis – o gargalhar franco e a voz sussurrada de paixão ou cumplicidade.
Amar uma mulher é tremer – sei lá de quê – cada vez que a vimos como se fosse a primeira. Recordo que mais do que despir uma mulher, prazer ig
ual me dá vesti-la. Experimentem os que nunca o fizeram e depois aquilatem da experiência.
Amar uma mulher é sair-lhe da cama e sentir já a necessidade do regresso. É saber que haverá entre ambos uma ausência prolongada e na derradeira entrega dos corpos inalá-la e plantar esse aroma na memória. Todas elas têm um cheiro diferente. Recordo-os todos, os das que amei verdadeiramente.

Tu, Lis, tiveste o condão de despertar em mim um homem que não conhecia. Foste e ainda és a responsável pela minha actual visão das mulheres. Recordo as minhas viagens de comboio a meio da semana para te ir ver a Lisboa, fazendo-te, tu, surpresa quando me vias, mas sabendo antecipadamente o efeito do teu telefonema. Quem resiste a um “vem para a minha cama…sinto a tua falta”?
Recordo o acordar “quente” a meio da noite pelo simples roçar dos corpos. O acelerar da tua respiração quando a minha boca te percorria o corpo. O suspirar profundo do prazer e o estremecer do teu corpo quando te acariciava um ponto mais sensível. Mas o que mais recordo são os teus apelos constantes ao meu nome ao ritmo da carícia ou do vai vem do corpo. Que sublimes foram os teus gestos de amor por mim.
O que adorava dar-te banho e espalhar-te creme pelo corpo. Fi-lo a outras, mas só tu amas-te a minha maneira desajeitada de o fazer. Nunca me recriminaste ou relevaste a minha inabilidade.
Recordo aquela vez, pelos Santos Populares, que respondendo a um telefonema teu e após me ter dirigido a tua casa e lido o bilhete que lá tinhas deixado, apareci no hospital em que fazias banco. Eram para aí umas duas da madrugada. Disseste-me que regressasse a casa e esperasse por ti. Disseste-me, lembro-me bem: “Vai e deita-te, quero a minha cama a cheirar a ti quando chegar”.
Quando, de manhãzinha, te avistei ao fundo da rua, pus a água a correr e preparei-te o banho, aguardando que entrasses. Deitei-te na cama, despi-te e levei-te ao colo para a banheira. Dei-te banho e preparei-te o chocolate quente com uma torrada, tal como gostavas. Em seguida limpei-te e sequei-te o cabelo, enquanto te vestia uma camisa minha. Como adoravas dormir nua só com uma camisa das minhas.
Deitei-te e deitei-me ao teu lado. ”Enroscaste-te” em mim e adormeceste apesar de sentires contra o teu corpo a manifestação do meu desejo. Deste-me aquele sorriso meio malicioso, meio de anjo, e adormeceste.
Adormeci ao teu lado e acordei com a tua boca quente na minha…éramos para ir almoçar às tasquinhas do Castelo, mas só saímos de casa para jantar.

Aquelas águas furtadas na Graça, com vista para o Tejo, foram o ninho de duas almas apaixonadas e conscientes da separação iminente, por via das “castas” sociais. O teu apelido era sonante e incompatível com a singularidade do meu. Em contrapartida deste-me o que, creio sinceramente, a nenhum ouro homem deste.
Fui eu que te deixei por cobardia. Não estava preparado para enfrentar os “monstros” da tua família e disse-te, ante a ameaça da perda do teu bem-estar financeiro, que estava inseguro dos meus sentimentos por ti. Antes sofrer do que ver-te passar dificuldades.
Rompeste um namoro de casta por mim e eu não estive à altura. Menti-te para não te arrastar para uma vida de nível inferior à que levavas, embora tu estivesses determinada a assumir-me. Perdoa-me do fundo da minha alma, perdoa-me Lis.
Quando te encontrei anos mais tarde, o teu olhar e o sorriso que me deste revelaram-me a dimensão da minha cobardia. Ali estavas tu, pronta a assumir-me de novo e sem cuidares da minha vida. Querias-me e pronto.
Disseste-me que tinhas amado outros homens, mas que os havias sempre comparado a mim. Eu era um vício teu, disseste. Eu, mais uma vez, cuidei de olhar à “estabilidade” familiar, aos que magoava se me entregasse como tu estavas disposta a fazer. Ainda hoje digiro mal a verdade que encerra uma das frases que me disseste: ”Doa a quem doer, os outros tem de se habituar à nossa felicidade”. Quanta razão há no que disseste. Tu, foste infeliz durante vinte e muitos anos, excepção feita às tuas filhotas. Eu deambulei pelo mundo tentando que o amor me encontrasse de novo.
Onde quer que estejas fazes parte de mim e um pouco de mim foi contigo. Será assim até ao fim dos meus dias.
Adeus e fica em paz.