Adeus a um Anjo...
A ti Lis,
"Li e reli o artigo sobre as corridas de toiros, brilhantemente escrito, diga-se, pelo meu incondicional amigo furão indiscreto. Outra coisa não era de esperar. Da mesma forma o fiz com os comentários, sabendo de antemão que o tema em nada é pacífico e que por se tratar de um assunto que mexe com sentimentos, é, à partida, algo que se deve tratar data vénia.
Não resisti e respondo da forma que sei.
Confesso-me um amante da festa brava e também eu senti, como aliás qualquer mortal, face à tragédia, a saída de cena do Quim Zé Correia. Prefiro definir assim o seu desaparecimento.
Já perdi amigos em praça, porque assim escolheram e de certa forma o quiseram. Sim, porque quem enverga uma Casaca, um Trajo de Luces ou uma Jaqueta de Ramagens, sabe de antemão que a sua integridade física está posta em risco e que aquela poderá ser a última corrida, quer lhe sobreviva ou não.
Carrego comigo marcas do destemor físico dos anos dourados da minha juventude, sem arrependimento, sem mostrar qualquer sinal de dor quando o dia amanhece mais frio e as articulações ou a ossatura me recordam danos pretéritos. São assim como que medalhas que ostento para mim com orgulho sereno, comedido, meu…só meu.
Quando me disseram na tropa que era um dever militar expor a vida ao risco derradeiro, não me deram novidade nenhuma, estava habituado a jogá-la nas praças de toiros. Aquilo que para muitos constituía objecto de juramento, para mim era a rotina da minha paixão, fazia-o com os meus pares, aqueles que sem necessidade de juramento algum em vãs manifestações de machismo militar (que na maior parte dos casos não existe), comigo ombrearam no enfrentar do toiro bravo.
Esses, que agora raramente vejo, por circunstancialismos da vida, mas que me estão sempre na memória, são também meus amigos de primeira água, alguns dos qu
Poucas fotografias ou outras relíquias guardo dos anos que passei pelas arenas, mas as memórias dos momentos sublimes de verdadeira camaradagem, amizade, valentia e destemor, essas guardá-las-ei até ao dia que Deus me chamar. Confesso que por vezes o sorriso de uma mulher bastava para esquecer a dor, qual bálsamo milagroso que transformava uma máscara de sofrimento num sorriso de retribuição e agradecimento. Permitam-me a partilha de um pouco da minha vida.
Nos meados da década de oitenta, após o meu regresso de França, melhor, da Córsega, voltei a fardar-me numa das praças principais do país, pegava-se um curro de toiros de ganadaria afamada. Quis o destino que o quinto da corrida me calhasse em sorte para a cara. Lá fui com os meus amigos do grupo e a coisa não correu bem nas duas primeiras tentativas. Rezam as crónicas que o bicho vinha a “pedir contas” e que foi democrático na distribuição de sopa de corno, mas que o grupo esteve sempre bem.
Pelo meu lado sentia que tinha sido metido dentro e uma máquina de lavar. Chegou a terceira tentativa e lá fomos nós outra vez. O toiro fez então uma coisa que não se esperava. No momento da reunião mudou de direcção, já comigo “fechado” com ele. Conclusão: Fiz quase meia praça sozinho nos cornos do toiro, sentindo-lhe os derrotes assim como as dores das tentativas anteriores e, finalmente, o embate nas tábuas onde, com a ajuda dos meus amigos, se consumou a pega.
Diz quem viu que a praça estava de “pé” aplaudindo. Não dei a volta da consagração por dois motivos. O primeiro, sempre, porque não havia pegado à primeira tentativa, noblesse oblige. O segundo, o determinante, porque fui fazer uma visita à enfermaria da praça. Aqui, para além do médico de serviço surgiu uma jovem médica, espontânea, voluntariosa e discípula do velho mestre médico. Reconheci-a imediatamente. Havíamos trocado olhares e sorrisos durante a corrida. Foi ela que me acompanhou ao hospital local, porque assim o quis e onde me deixou entregue aos cuidados dos seus colegas de serviço. Nada de grave tinha para além de uns “amassos” e de renovadas dores em locais da minha anatomia que já haviam sido objecto de atenção taurina anterior. Uns tubinhos de Irudoid e caldos de galinha reporiam forças para a corrida seguinte.
Nessa noite, na mesma praça, houve lugar a uma ceia seguida de “Fados e Guitarradas” com artistas de renome, só para convidados. Compareci atrasado, uma vez que fui tomar banho e mudar de roupa mais tarde. No meio de tanta atenção afectuosa, na demanda do meu estado de saúde, quer dos meus amigos, das suas namoradas ou esposas, dos seus pais e outros familiares, também dos convidados, descobri a jovem médica daquela tarde. Ao seu olhar interrogativo respondi com um aceno de cabeça, indicando-lhe que estava tudo bem.
A noite foi decorrendo ao som dos fados, ao mesmo ritmo que os nossos olhares se cruzavam vezes e vezes sem conta. Aquele olhar era diferente de todos os olhares femininos que já se haviam cruzado com o meu. Era puramente magnético, mágico…indescritível. Abstenho-me de descrever a sua beleza física porque tenho para mim que todas as flores são belas.
Chegou a vez dos fadistas amadores e de quem quisesse cantar. Qual não é o meu espanto quando a jovem médica sobe ao tablado e “arranca” um fado da Dona Teresa Tarouca; “O meu amor é forcado”, dedicando-o a alguém “muito especial que fez do esgar de dor o mais lindo dos sorrisos”.
Percebi de imediato que era para mim. Nunca mulher alguma me havia dito coisa mais linda, ou dedicado algo. Fiquei sem palavras, paralisado, sem saber o que fazer quando ela acabasse de cantar. Creio que pouca gente se apercebeu que era para mim que cantava com aquela linda voz rouca.
Após os fados conhecemo-nos e cai-lhe nos braços da forma que ela me quis, quando e como
me quis. Rendi-me incondicionalmente. Jamais esquecerei o seu cheiro, o seu sorriso lindo e aqueles olhos negros como o seu cabelo de azeviche. Voltei a encontrá-la várias vezes e em cada uma delas a anterior era superada. Não era racional, era físico, mas de uma intensidade e entrega esmagadoras. Química pura. Pouco me importa que tudo tenha sucedido na decorrência de um “lamentável espectáculo próprio para pessoas mentalmente atrofiadas”, em que eu usava um daqueles “casaquinhos (ou lá como lhes chamam) muito amaricados, para não dizer de uma “pirosidade” confrangedora”.Relembro-a frequentemente como uma boa amiga, amante, companheira inteligente e, acima de tudo, como mulher de excepção na minha vida. Sei onde está por acaso, um daqueles que a vida nos proporciona agradavelmente. Exerce num hospital da capital. É hoje, naturalmente, mais mulher, linda como sempre e, ao revê-la, tudo voltou, real, actual…até o cheiro. A distância e o tempo arrefecem muita coisa, assim como os padrões de vida e as “castas” sociais. A forma de olhar mantinha-se inalterada. Fazemos parte um do outro para sempre e só nós o sabemos.
Naquele dia, no entanto, havia experimentado das melhores emoções da minha vida, senão mesmo as melhores. Após pegar um toiro nada fácil, ceei de forma avinhada com os meus amigos, ouvi fados e foi-me dedicado um, caindo em seguida nos braços de uma mulher que me quis incondicionalmente. Venham lá pintores e poetas que pintem ou descrevam um quadro assim como o que guardo na memória.
Quanto ao resto das opiniões sobre os toiros respeito-as sem as discutir. Tenho a minha forma de estar nestas coisas. Ainda hoje, quando “dou de fuga” uma ou outra noite, fechando a última casa de fados ou uma tasca onde se cante até tarde, acabo sempre por passar na Avenida Almirante Reis, não sem antes comprar dois “six-pack” de “bejecas” e uma dúzia de bifanas para ir dar o pequeno almoço a alguns dos que dormem debaixo das coberturas das lojas daquela avenida. Pretexto apenas para conversar um pouco fora da “capa social”. Eles, tal como eu, necessitam desses momentos.
Sei-lhes o nome, o que são e o que foram. Talvez o faça por já
estar bebido, talvez por alívio de consciência social, mas tenho para mim que o faço porque quero e gosto, da mesma forma desapaixonada com que peguei toiros. Porque quis e gostei. Os juízos que queiram fazer de ambas as actividades são-me respeitosamente indiferentes, mas aquele espectáculo que vejo ocasionalmente quando me avinho, mas que é diário, em recinto aberto e gratuito, esse sim é consentido por pessoas mentalmente atrofiadas, vestidas com fatinhos caríssimos, de gostos “apaneleirados” e que gastam os impostos em vãs exaltações do seu poderio político.Carpe diem. "










